terça-feira, 5 de abril de 2011

Ego - Transcendência - Razão / Visão de Max Heindel

Como já abordado neste Blog no post Tudo é Ilusão - A Tese do Ego "Artificial", há toda uma Filosofia que prega a necessidade de desapego da realidade imediata, podendo-se dizer (ainda que por figura de linguagem) que o homem deve deixar a razão e buscar a percepção impessoal de sua essência.

Acho de todo pertinente abordar algumas colocações feitas por Max Heindel em sua monumental obra "Conceito Rosacruz do Cosmos". Adiante, trecho do Capítulo VIII - "A Obra da Evolução".


[...]
Como já indicado no estudo do Mundo do Desejo, o Interesse é a mola da ação, se bem que no presente grau de desenvolvimento o Interesse é geralmente despertado pelo egoísmo. Algumas vezes é de natureza mui sutil, mas incita à ação de várias maneiras. Toda ação inspirada pelo Interesse gera certos efeitos que atuam sobre nós e, em conseqüência, estamos limitados pelas ações que se relacionam com os mundos concretos. Mas se ocuparmos as nossas mentes com assuntos tais como a matemática, ou com este estudo das fases planetárias da evolução, nós estamos laborando na Região do Pensamento puramente Abstrato, que fica além da influência do Sentimento, dirigindo-se para o alto, rumo aos remos espirituais e à libertação. Extrair raízes cúbicas, multiplicar algarismos, ou meditar sobre Períodos, Revoluções, etc., não gera Sentimentos a tal respeito. Não brigamos para que duas vezes dois sejam quatro. Se envolvêssemos nisso os nossos sentimentos, talvez pretendêssemos que o produto fosse cinco, e questionaríamos com quem, por razões pessoais, quisesse talvez que fosse três. Mas em matemática a Verdade é clara, aparente, e o sentimento está eliminado. Por isso, ao comum dos homens, desejosos de viver seus sentimentos, a matemática é árida e sem interesse. Pitágoras ensinava aos seus discípulos que vivessem no Mundo do Espírito Eterno, e exigia primeiramente dos que desejavam instrução, o estudo da matemática. Uma mente capaz de compreender a matemática coloca-se acima da mentalidade comum, e é capaz de elevar-se ao Mundo do Espírito porque não está presa ao Mundo do sentimento e do Desejo. Quanto mais nos acostumamos a pensar em termos dos Mundos Espirituais, tanto mais facilmente poderemos sobrepor-nos às ilusões que nos rodeiam nesta existência concreta, onde os sentimentos gêmeos de Interesse e Indiferença obscurecem a Verdade e nos sugestionam, assim como a refração de luz dos raios luminosos através da atmosfera da Terra nos dá uma idéia errônea sobre a posição ocupada pelo luminar que os emite.
[...]

Outros trechos relevantes:


[...]
Nós mesmos, como Egos, funcionamos diretamente na substância sutil da Região do Pensamento Abstrato, que especializamos dentro da periferia da nossa aura individual. Daí observamos, através dos sentidos, as impressões produzidas pelo mundo exterior sobre o Corpo Vital, como também os sentimentos e emoções gerados por elas no Corpo de Desejos e refletidos na mente.
Dessas imagens mentais formamos as nossas conclusões na substância da Região do Pensamento Abstrato relativas aos assuntos a que se referem. Tais conclusões são idéias. Pelo poder da vontade projetamo-las através da mente quando então, revestindo-se de matéria mental da Região do Pensamento Concreto, concretizam-se como pensamento4orma.
A mente é como as lentes projetoras de um estereoscópio. A imagem é projetada em uma das três direções de acordo com a vontade do pensador que anima o pensamento-forma.
[...] (pág. 48)

[...]  E assim o Espírito Virginal viu-se encerrado num tríplice véu, sendo o véu externo, o Espírito Humano, o que efetivamente o cegou à unidade da Vida, convertendo-o em um Ego e mantendo a ilusão de separatividade adquirida durante a Involução. A Evolução dissolverá gradualmente essa ilusão, trazendo de volta a consciência do todo, enriquecida pela consciência de Si mesmo.
Vemos, pois, que ao terminar o Período Lunar o Homem possuía um Tríplice Corpo em vários estágios de desenvolvimento, e também o germe do Tríplice Espírito. Tinha os Corpos Denso, Vital e de Desejos, e os Espíritos Divino, de Vida e Humano. Tudo o que faltava era um elo que os unisse. (pág. 120)
[...] No Período Terrestre os Senhores da Mente alcançaram o estado Criador e emitiram de si, dentro do nosso ser, o núcleo do material com o qual estamos procurando agora construir uma mente organizada. "Poderes das Trevas" foi o nome que lhes deu Paulo, por terem surgido do escuro Período de Saturno. São considerados maus devido à tendência separatista, pertinente ao plano da razão, em contraste com a força unificadora do Mundo do Espírito de Vida, o Reino do Amor. Os Senhores da Mente trabalham com a humanidade. (pág. 122)

Não seria possível (nem haveria maior propósito) em transcrever tudo o que Heindel fala sobre a antropogênese, a epigênese etc etc etc. Mas há muitas informações de extremo interesse e que são concernentes à visão por ele exposta sobre o Ego e o egoísmo enquanto fase da evolução do homem. 

domingo, 3 de abril de 2011

Cristandade e dor... O Arianismo X Credo Niceno

Continuação da pesquisa com base na obra:

O livro negro do cristianismo
Jacopo Fo, Sérgio Tomat, Laura Malucelli



O Concilio de Sárdica (Sofia), em 343, que se encerrou com a reiteração do que foi deliberado em Nicéia, foi abandonado pelos bispos orientais, que organizaram um contraconcílio em Filipópolis.

Em Constantinopla, durante o episcopado de João Crisóstomo (345-407), irromperam-se violentos conflitos entre arianos e niceianos9 que deixaram um saldo de vários mortos.

Em 353, Constâncio II, único imperador, impôs as doutrinas filo-arianas em todo o território do Império. Os arianos, então, passaram a defender a tese de que a Igreja deveria se submeter ao Estado, enquanto os niceianos lutavam por autonomia.

Em 357, o bispo ortodoxo Ósio, já centenário, foi obrigado, por meio de tortura, a subscrever as teses arianas do Concilio de Sírmio. Em 361, com a ascensão ao trono de Juliano, o Apóstata, que tentou
restaurar o paganismo, foi dada anistia geral a todos os cristãos perseguidos acusados de heresia, provavelmente emitida com o objetivo de enfraquecer o cristianismo.

O imperador Teodósio I, que subiu ao trono em 378, logo condenou as doutrinas arianas nos territórios do Oriente. No Ocidente, entretanto, onde de fato reinava a ariana Justina, a tolerância foi garantida. Em 386, o bispo de Milão, Ambrósio, após negar a Justina a cessão de uma igreja para realizar o culto ariano, organizou uma vigília em sua própria basílica para defendê-la dos ataques dos emissários imperiais.

Os próprios arianos, por sua vez, estavam divididos em várias correntes. Em 362, em Antióquia, havia cinco comunidades cristãs separadas, cada qual com seu próprio bispo e hostil às demais. Quando Teodósio ampliou seus domínios aos territórios ocidentais, o arianismo foi banido por completo do território do Império, e o cristianismo niceiano se tornou a religião oficial do mundo romano.

Naturalmente, o decreto não significou a extinção automática da heresia ariana, que sofreria, mais de um século depois, perseguições por parte de Justino e, depois, de Justiniano.

O cristianismo, em sua versão ariana, foi difundido entre os povos "bárbaros" do norte graças às preleções de Áudio, bispo de vida exemplar, e, sobretudo, de Wulfila (345-407), o bispo que, por volta de 375, traduziu para o godo o Antigo e o Novo Testamentos. Foi graças a essa tradução que a crença ariana conseguiu se difundir entre os visigodos, os ostrogodos, os suevos, os vândalos, os burgúndios e os
lombardos. Ao contrário dos povos que viviam na Itália e que praticamente não se expressavam em latim, os bárbaros tinham a grande vantagem de aprender o Evangelho em sua língua falada. Os godos, assim, estavam mil anos à frente de Martinho Lutero.

Cristandade e dor... Mais alguns dados

Pesquisa feita na obra:

O livro negro do cristianismo
Jacopo Fo, Sérgio Tomat, Laura Malucelli


O interesse do Estado Romano nos cristãos:


Em 311, os pretendentes ao título de "augusto" eram quatro: Constantino e Magêncio, filho de Maximiliano, no Ocidente, e Valério Licínio e Maximino Daia no Oriente. Constantino se aliou a Licínio, concedendo-lhe a mão de sua irmã, Constância, e marchou rumo à Itália contra Magêncio. Em 312, naquela que é lembrada como a Batalha da Ponte Mílvio, mas que na verdade se iniciou em Saxa Rubia, Constantino derrotou Magêncio, que morreu durante a retirada,
tornando-se, assim, único senhor do Ocidente. Em 313, ele e Licínio promulgaram o Edito de Milão, que assegurava liberdade de culto aos cristãos e transformava o cristianismo em uma das religiões oficiais do Império Romano. Iniciava-se o processo de integração dos cristãos à sociedade romana e à organização do Estado. A liberdade de culto dada aos cristãos seria o pretexto para a luta pelo controle do Oriente entre Maximino (perseguidor dos cristãos) e Licínio (que, mesmo não sendo batizado, agia como defensor dos cristãos). A guerra no Oriente se encerra com a vitória definitiva de Licínio e o suicídio de Maximino.

[...] Licínio se revoltou contra Constantino. Surgiu, assim, umaguerra que teve Constantino como vencedor. Compelido à rendição, Licínio foi obrigado a lhe ceder quase todas as províncias orientais, mantendo apenas a Trácia.
Em 323-324, Licínio se rebelou novamente e de novo foi derrotado. Dessa vez, foi preso e morto, apesar das súplicas feitas por Constância ao irmão Constantino. A partir de então, desaparece qualquer resíduo da tetrarquia criada por Diocleciano, e Constantino domina como um monarca todo o Império Romano.

Concílio de Nicéia:

Em 325, acontece o famoso Concilio de Nicéia, o primeiro concilio ecumênico da Igreja Católica. Dele participaram cerca de trezentos bispos e prelados, na maioria orientais, sendo presidido por Osio, um homem de confiança do imperador. As principais questões abordadas foram o dogma da Trindade, a reafirmação da origem divina de Cristo e a condenação à heresia ariana.


(Constantino e a Cristandade)

[...] Constantino concedeu crescentes favores, financiamentos e reconhecimentos ao culto cristão. Os bispos, por exemplo, foram isentos do pagamento dos impostos, tornaram-se funcionários imperiais e até juízes de apelação. Em troca, obteve uma ingerência cada vez maior nos assuntos internos da Igreja, da qual se considerava "bispo externo".

[...]

Os historiadores contemporâneos garantem que a adesão ao cristianismo de Constantino foi convicta e sincera, e é provável que seja verdade, se levarmos em consideração que as concessões religiosas de um oficial romano da época eram bem diferentes das nossas: "...a função do imperador é a de se colocar como sujeito coletivo que represente toda a cidade e todo o mundo (orbis), na qualidade de Imperator orbis. De fato, o primeiro encargo que Augusto reserva a si mesmo é o de Pontifex Maximus, representante junto à divindade que constitui o pacto da aliança [...] E isso continua em vigor até Constantino. Roma, portanto, através de seus sacerdotes, de seus institutos, de seus colégios coletivamente representados pelo imperador, pede à divindade três coisas:
1. a fertilidade das mulheres (tanto mães quanto Mulheres, pois, para os
romanos, havia pouca distinção);
2. a vitória dos exércitos;
3. a paz social.
Em troca, ofereciam o culto às divindades.

[...]

Por volta de 314, ao menos dois grandes movimentos heréticos surgidos no norte da África, onde se encontravam as comunidades cristãs mais numerosas e ricas do Império, preocupavam Constantino.
O primeiro foi o cisma dos donatistas, um movimento rigorista, contrário aos compromissos com o poder imperial, que contava com muitos prosélitos e que, em 311, chegou a eleger em Cartago um antibispo, em contraposição ao legítimo.
Constantino, após tentar uma mediação, acabou apoiando o bispo legítimo Ceciliano, subvencionando a Igreja "oficial", proibindo que os donatistas usassem os locais de culto e negando o asilo para alguns de seus líderes. Em seguida, seu filho Constante promoveu uma perseguição ainda mais cruel e sanguinária contra eles.


O outro movimento era muito mais perigoso: tratava-se dos agostinianos, um verdadeiro exército de guerreiros em nome de Cristo. Os agostinianos eram expoentes de classes populares com reivindicações políticas e sociais, como a libertação dos escravos, o perdão das dívidas e o fim dos usurários.
Eles se organizavam em batalhões armados que realizavam incursões avassaladoras nas grandes propriedades, incendiando casas e matando as famílias dos latifundiários mais odiados.
Foram massacrados pelas tropas imperiais.

Ário

Na época de Constantino, outra grande disputa dividia o cristianismo. Principalmente no Oriente, os cristãos haviam se dividido entre partidários e adversários de Ário, um presbítero da diocese de Alexandria.

Ário e seus seguidores afirmavam que o Filho de Deus, ao contrário do Pai e tendo sido por Ele criado, teve um início; portanto, Cristo representava uma divindade de segundo plano. Foi para resolver essa questão que Constantino convocou, em 325, em Nicéia (na antiga Turquia), aquele que ficou na história como o primeiro concilio geral da Igreja Católica. Dele participaram mais de 300 bispos e prelados, com exceção do bispo de Roma, que mandou dois representantes.
As conclusões desse primeiro concilio foram muito importantes para a história da Igreja. A grande maioria dos padres aprovou um Credo, no qual se afirmava que o Filho fora gerado, e não criado, com a mesma substância do Pai (em grego, homooüsion, quando, para os arianos, era apenas homoioúsion, ou seja, "de substância similar"). Pela primeira vez, foi proclamado dogma, ou seja, verdade revelada, um termo que não estava contido nas Escrituras (em nenhuma passagem, o Novo ou o Antigo Testamento afirmam que o Filho é consubstanciai ao Pai). Além disso, os Padres Conciliares declararam sua crença no Espírito Santo, tradução do hebraico ruah, que era, no entanto, de gênero feminino.

[...]
O Concilio não marcou o fim do arianismo. Entre 327 e 328, Constantino reabilitou Ário e alguns de seus seguidores, e nomeou como conselheiro o bispo ariano Eusébio de Nicomédia, que o batizaria em seu leito de morte. Pelo contrário, a partir de 326 foram exiladas dezenas de bispos antiarianos. Sucederam-se vários combates entre facções, com muitos mortos e feridos; concílios e contraconcílios, que condenavam ora uma tese, ora outra; de exílios e de retornos; de perseguições por parte de imperadores "arianos" e "niceianos".
[...]
Todos os historiadores concordam que Constantino não entendia nada de questões doutrinárias. A única coisa que lhe interessava era tornar o cristianismo uma crença homogênea, sem nuances, sem ambigüidade, livre de conflitos internos perigosos.
[...]
Os cristãos, que ainda exibiam na carne os sinais das perseguições, tornaram -se perseguidores. Durante os últimos anos de vida de Constantino, vários templos pagãos foram demolidos, sobretudo no Oriente. Outros templos continuaram em atividade, mas foram despojados de tudo que tinham de precioso: estátuas, objetos preciosos, revestimentos de ouro e prata, portas de bronze. Muitas obras de arte foram levadas para embelezar a nova capital: Constantinopla.

(Após Constantino)

O imperador Teodósio II (408-450) mandou punir algumas crianças, culpadas de brincar com restos de estátuas pagas. E, de acordo com os elogios dos cristãos, Teodósio "seguia conscienciosamente cada ensinamento cristão". Em 415, em Alexandria, uma turba de fanáticos cristãos linchou a matemática, astrônoma e filósofa neoplatônica Hipácia, importante expoente da cultura pagã.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Quem é Lúcifer?

O Mal é apontado na Doutrina Espírita como a ausência do Bem. Em outras filosofias espiritualistas, o Mal é uma das faces da mesma moeda à qual antepõe-se o Bem. Assim, tanto por uma como por outra visão, a dualidade “Bem X Mal” é parte integrante do sistema filosófico adotado.

Ao longo dos séculos que se seguiram ao estabelecimento do Credo de Nicéia, a Igreja instituiu e sedimentou a imagem do Adversário como a personificação do Mal. Lançou-o à consideração de todos como o Diabo, Satã, Mefistófeles, enfim, como um anjo que, tendo sido o mais belo e mais sábio, tomou-se de vaidade e quis ser Deus.

Daí sua designação como “Lúcifer” – o “Portador de Luz”.

Neste mesmo Blog já abordamos algumas vezes a dualidade “Bem X Mal”. Agora, proponho o seguinte aspecto: “Quem” é (ou seria) Lúcifer?

As tradições antigas dos povos, tanto do Ocidente como do Oriente, comungam de uma mesma base mitológica quanto ao surgimento do homem. Variam nomes e aspectos ambientes, mas o mito é sempre mais ou menos o mesmo.

Com uma enorme diferença, todavia.

O Mal não é visto como a ausência do Bem, tampouco como a sua negação ou contraposição. É um aspecto do todo, e, juntamente com o Bem, comungam da essência do próprio Criador Manifesto.

Há um Criador incognoscível, não manifesto, anterior a tudo. Esse Criador não fica no Repouso Absoluto senão até o momento em que, manifestando sua Vontade, faz-se Criador Manifesto através das mônadas que de si emite. Assim da Mônada vêm as mônadas,

Uma longa descrição, em cada cultura dos povos antigos, parte daí até o momento em que deve o homem vir à existência.

Portador de uma mônada individualizada, necessita da matéria para restringir-se à individualização absoluta. Sente-se, assim, separado do todo e passa a reconhecer-se como ser.

Eis aí a sua “revolta”. Eis aí a “rebelião”. O homem sente-se único e identifica-se como um ser à parte. Nesse estrito sentido, “revolta-se” contra o Criador. A noção de si mesmo é o fruto da Árvore do Conhecimento.

Após a plena individualização, de que necessita o homem? Necessita ascender em retorno à Luz Absoluta, na espiral evolutiva que, fechando ciclos, parece retroagir mas continua subindo.

Qual o instrumento necessário para que o homem mude o curso descendente à matéria e retorne, após sua experiência como ser individualizado, à Fonte que o criou?

Esse instrumento é tudo o que o homem aprendeu a chamar de Mal...

É a dor que instrui o ser à manutenção de si mesmo, com os cuidados indispensáveis à própria conservação.

É a perda que obriga o ser à valoração das coisas que lhe vêm ao domínio.

É o medo que impede o ser de lançar-se aos devaneios aventureiros que a vontade traz.

É a humilhação que impele o ser à valoração de si mesmo, extirpando o orgulho que seduz e distorce.

É a violência que nos bate à face cada vez que tentamos burlar nossa consciência com os argumentos personalistas que ofendem nossa natureza espiritual.

E assim por diante...

Lúcifer? É o símbolo do anjo que veio até nós (caiu) para nos ensinar o retorno à Luz...

Não tenha dúvida... Essa história de “Príncipe das Trevas” é apenas para dominar pelo medo. As atrocidades que os homens cometem, cometem-nas por si mesmos, no exercício de sua liberdade de ação que a individualidade propicia.

É preciso acordar para a nossa integral responsabilidade. O Diabo é um pobre coitado que leva a culpa por tudo o que o homem tem vergonha de ter feito.


sexta-feira, 25 de março de 2011

Inteligência

Consoante O Livro dos Espíritos:


72. Qual a fonte da inteligência?
“Já o dissemos; a inteligência universal.”
a) - Poder-se-ia dizer que cada ser tira uma porção de inteligência da fonte universal e a assimila, como tira e assimila o princípio da vida material?
“Isto não passa de simples comparação, todavia inexata, porque a inteligência é uma faculdade própria de cada ser e constitui a sua individualidade moral. Demais, como sabeis, há coisas que ao homem não é dado penetrar e esta, por enquanto, é desse número.”
Há citações aqui e acolá no meio espiritualista sobre a inteligência do homem. Muitos defendem que o homem é um instrumento de manifestação do Pensamento Divino, filtrado e dimensionado consoante suas características emocionais e seus impulsos dominantes. Isso reduz a condição do espírito humanizado a um responder da Fonte Primária.

A citação acima evidencia que no âmbito da Doutrina Espírita essa visão é posta como uma simples comparação, todavia inexata. E o texto arremata: porque a inteligência é uma faculdade própria de cada ser e constitui a sua individualidade moral.

A Doutrina vincula, pois, a individualidade do ser, enquanto ser inteligente, à sua compleição moral. Mas não é isso a mesma coisa, dita por palavras diferentes? As características emocionais e os impulsos dominantes de um indivíduo são, na menor das perspectivas, um referencial bastante robusto de sua compleição moral. Os Espíritos são criados simples e ignorantes, segundo a Doutrina Espírita. Essa mesma doutrina ensina que o mal advém dos vícios e das paixões, os quais, por sua vez, advêm do instinto de conservação ("A Gênese" - consoante já abordado em vários posts neste mesmo Blog).

Então, conforme o ser progride espiritualmente faz opções de crescente complexidade, em sintonia com o aumento de sua responsabilidade. Mas, veja-se, a crescente responsabilidade depende diretamente do aumento da capacidade valoração moral, valoração essa que só é possível com o desenvolvimento da capacidade intelectiva...

Mais uma vez, a cobra morde o seu rabo e o fim confunde-se com o início.

domingo, 13 de março de 2011

A Transcendência do Ego

Vamos tomar de empréstimo uma parábola antiga.


O espírito sobe por uma montanha, obedecendo a um impulso inato e de sua própria essência. Progride e vai vencendo os obstáculos da escalada. Nem se dá conta de que a imensa montanha tem uma inclinação negativa, inclinação que torna impossível retornar.


O espírito segue, assim, até encontrar uma reentrância plana, grande e confortável. O pequeno platô na encosta da imensa montanha é grande o bastante para que o espírito aí encontre reconforto e descanso. Após refazer-se da longa jornada anterior, o espírito percebe-se um ser que está subindo por uma imensa montanha.


Sabe que veio lá de baixo, de onde não mais se recorda. Sabe, também, que não tem como voltar. Olha para a montanha à sua frente e vê que a subida é íngreme e as pedras são lisas, com poucos pontos de apoio.


Parte em sua jornada e seguidas vezes escorrega em pequenas quedas até a reentrância em que estacionara.


Vem-lhe o medo de continuar. Sabe que a cada tentativa foi mais longe, mas caiu... Sabe que deve subir mas que, sendo a subida ainda inclinada, depois de avançar bastante caso venha a cair não mais atingirá a reentrância, precipitando-se no abismo.


Depois de mais algumas tentativas, indo cada vez um pouco mais além, chega ao limite de suas possibilidades.


Vem-lhe a compreensão de que o pequeno mas importante platô em que se recolhe é o seu limite de individualidade. Entende que não é, de si para consigo, o suficiente para o enfrentamento da jornada de si mesmo nas ascensão.


Percebe, enfim, que sua individualidade não é o bastante para que consiga subir. Precisa de ajuda. Precisa de algo mais além de si para que possa continuar. Tem que transcender aos limites de sua individualidade para seguir adiante.


Mas não sabe exatamente a quem recorrer... Entende-se apenas um ser em progresso naquela árdua subida...


O cansaço se converte num leve alheamento de si mesmo. Torna-se uma serenidade que se insinua como um sono invencível, um torpor que seduz pelo conforto que consigo traz...


Deixa-se ir adiante e, sem entender, uma força o mantém firme na encosta para que possa tirar frutos de seu esforço.


Sobe... Sobe... Simplesmente avança...


No silêncio, na calma, na paz, percebe que existe algo que transcende os limites de seu ser. Algo que ainda não entende mas que é igualmente seu, tão essencial a si mesmo quanto a noção que tinha enquanto demorava-se na reentrância da montanha.


O espírito tem aí a sua experiência mística de transcendência de seu ego.

sábado, 5 de março de 2011

O Mito da Queda – Espiritismo – Novas Cogitações

O Mito da Queda está presente em toda a tradição antiga, com roupagens diferentes consoante a cultura, em cada momento e de cada povo. Com o advento do Espiritismo, máxime nas pesquisas e estudos catalogados na Revista Espírita, vemos manifestações que corroboram esse mito como símbolo de algo muito relevante nas bases filosóficas da Doutrina.

Eis o trecho (Revistra Espírita – 1858 – págs. 192/193):

MORTE DE CINCO CRIANÇAS POR UM MENINO DE DOZE ANOS.
PROBLEMA MORAL.

"Escreveu-se de Bolkenham, em 20 de outubro de 1857, que um crime apavorante foi cometido por jovem menino de doze anos. Domingo último, 25 do mês, três filhos do senhor Hubner, fabricante de pregos, e dois filhos do senhor Fritche, sapateiro, jogavam juntos no jardim do senhor Fritche. O jovem H..., conhecido por seu mau caráter, se associou aos seus jogos e convenceu-os a entrarem em um baú depositado em uma casinha do jardim e que servia ao sapateiro para transportar suas mercadorias para a feira. As cinco crianças puderam nele entrar com dificuldade, mas se comprimiram e se colocaram umas sobre as outras, rindo. Logo que nele entraram, o monstro fechou o baú, sentou-se em cima, e ficou três quartos de hora escutando primeiro seus gritos, depois seus gemi-dos.
"Quando, enfim, seus estertores cessaram, que os acreditou mortos, abriu o baú; as crianças ainda respiravam. Ele fechou o baú, aferrolhou-o e se foi brincar com papagaio de papel. Mas foi visto, saindo do jardim, por uma jovem. Concebe-se a ansiedade dos pais, quando perceberam o desaparecimento de seus filhos, e seu desespero quando, depois de longa procura, encontram-nos no baú. Uma das crianças vivia ainda, mas não tardou em entregar sua alma. Denunciado pela jovem que o havia visto sair do jardim, o jovem H... confessou seu crime com o maior sangue-frio e sem manifestar nenhum arrependimento. As cinco vítimas, um menino e quatro meninas de quatro a nove anos, foram enterrados juntos, hoje.
Nota. - O Espírito interrogado foi o da irmã do médium, morto há doze anos; mas que sempre mostrou superioridade como Espírito.
1. Ouvistes o relato que acabamos de ler da morte cometida na Silésia, por um menino de doze anos sobre cinco outras crianças? - R. Sim; minha pena exige que eu escute ainda as abominações da Terra.
2. Qual motivo pôde levar uma criança dessa idade a cometer uma ação tão atroz e com tanto sangue-frio? - R. A maldade não tem idade; ela é ingênua numa criança; é raciocinada no homem feito.
3. Quando ela existe numa criança, sem raciocínio, isso não denota a encarnação de um Espírito muito inferior? - R. Ela vem, então, diretamente da perversidade do coração; é o seu Espírito que o domina e o leva à perversidade.
4. Qual poderia ter sido a existência anterior de um Espírito semelhante? - R. Horrível.
5. Em sua existência anterior, ele pertencia à Terra ou a um mundo ainda mais inferia? - R. Não o vejo bem; mas devia pertencer a um mundo bem mais inferior que a Terra: ele ousou vir à Terra; por isso será duplamente punido.
6. Nessa idade a criança tinha bem consciência do crime que cometia, e dele tem a responsabilidade como Espírito? - R. Ele tinha a idade da consciência, é bastante.
7. Uma vez que esse Espírito havia ousado vir à Terra, que é muito elevada para ele, pode ser constrangido a retornar para o mundo em relação com a sua natureza? - R. A punição é justamente de retroceder; ele mesmo é o inferno. É a punição de Lúcifer, do homem espiritual rebaixado até a matéria; quer dizer, o véu que lhe esconde, de hoje em diante, os dons de Deus e sua divina proteção. Esforçai-vos, pois, para reconquistar esses bens perdidos; tereis ganho o paraíso que o Cristo veio vos abrir. É a presunção, o orgulho do homem que gostaria de conquistar o que só Deus pode ter.

Nota. - Uma observação é feita a propósito da palavra ousou, da qual se serviu o Espírito, e dos exemplos que foram citados concernentes à situação de Espíritos que se encontraram em mundos muito elevados para eles, e que foram obrigados a retornar para um mundo mais em harmonia com a sua natureza. Uma pessoa fez notar, a esse respeito, que foi dito que os Espíritos não podem retrogradar. A isso respondeu que, com efeito, foi dito que os Espíritos não podem retrogradar no sentido de que não podem perder o que adquiriram em ciência e em moralidade; mas eles podem decair como posição. Um homem que usurpe uma posição superior àquela que lhe conferem suas capacidades ou sua fortuna pode ser constrangido a abandoná-la e retornar ao seu lugar natural; ora, não está aí o que se pode chamar decair, uma vez que não fez senão reentrar em sua esfera, de onde saiu por ambição ou por orgulho. Ocorre o mesmo com respeito aos Espíritos que querem se elevar muito depressa nos mundos onde se encontram deslocados.
Espíritos superiores podem igualmente se encarnar em mundos inferiores, para irem cumprir uma missão de progresso; isso não pode chamar-se de retrogradar, porque é devotamento.
8. Em que a Terra é superior ao mundo ao qual pertence o Espírito do qual acabamos de falar? - R. Nele há uma fraca idéia da justiça; é um começo de progresso.
9. Disso resulta que, em mundos inferiores à Terra, não há nenhuma idéia de justiça? - R. Não; os homens aí não vivem senão para eles, e não têm por motivação senão a satisfação de suas paixões e de seus instintos.
10. Qual será a posição desse Espírito em uma nova existência?
- R. Se o arrependimento vier apagar, senão inteiramente pelo menos em parte, a enormidade de suas faltas, então ele permanecerá na Terra; se, ao contrário, ele persistir nisso que chamais a impenitência final, ele irá para uma morada onde o homem está no nível do animal.
11. Assim, pode ele encontrar, sobre essa Terra, os meios de expiar suas faltas sem ser obrigado a retornar para um mundo inferior? - R, O arrependimento é sagrado aos olhos de Deus; porque é o homem que julga a si mesmo, o que é raro em vosso planeta.


Quando abordo a Queda como interessante ao estudo da condição humana, aponto para a natureza rebelde (o Anjo Rebelde - a Rebelião de Lúcifer) de quem, tendo atingido a noção de si mesmo enquanto individualidade, experimenta o ímpeto de vivenciar a consciência e as escolhas que dela advêm...

O Mito do anjo decaído, segundo muitos, representa a descida do Espírito à carne. Ocorre que é a Codificação que nos ensina que o Espírito necessita da matéria para desenvolver a inteligência.

71. A inteligência é atributo do princípio vital?

“Não, pois que as plantas vivem e não pensam: só têm vida orgânica. A inteligência e a matéria são independentes, porquanto um corpo pode viver sem a inteligência. Mas, a inteligência só por meio dos órgãos materiais pode manifestar-se. Necessário é que o Espírito se una à matéria animalizada para intelectualizá-la.”

É por demais relevante à compreensão de nosso estágio enquanto humanidade essa "descida" à matéria para manifestar a inteligência. Por que somente através de órgãos materiais pode a inteligência se manifestar?

Talvez porque essa manifestação de inteligência, referida na própria Doutrina, seja concernente à inteligência de um ser plenamente individualizado, portanto distinto da Inteligência que compõe o princípio inteligente.

Sendo assim, seria a Queda o caminho natural do progresso do ser que se inicia na fase de humanização (pergunta 607-A do LE)?

Quando abordo o mito da Queda, refiro-me à noção que existe em todos os povos, desde a mais remota antiguidade, do simbolismo da descida da essência espiritual ao plano denso da matéria física. Não apenas reencarnações.

A Humanidade deste planeta desceu à matéria porque necessitava de órgãos materiais para manifestar a inteligência. Independentemente de serem necessárias várias encarnações, o que fascina é a informação passada pelos Espíritos Superiores no âmbito da Doutrina Espírita --- o Espírito necessita de órgãos materiais para manifestar a inteligência.

Por que? O que isso tem a ver com a Queda? Tudo...

Imagine o princípio inteligente em fase de humanização. Só vai atingir a plena individualidade e, assim, destacar-se do todo e tornar-se único, quando estiver na matéria sob a restrição máxima que permite essa individualização. Ora, o princípio inteligente é o "anjo" que desejou ser Deus... Desejou ser... Simplesmente desejou ter sua própria identidade, delimitando-se do todo --- ser único, como único é somente Deus...

Um aspecto também encontradiço nas tradições é a condição humana ser apresentada como algo excepcional – não no sentido de “bom”, mas de exceção mesmo, no concerto da Harmonia que advém do Pensamento do Criador. Em todos os povos a tradição sempre e sempre aponta para um "alguém" muito elevado que nos tomou em sua consideração para a recondução à "normalidade"...

Nada disso viria à tona nos estudos espíritas não fosse pela informação: o Espírito necessita de órgãos materiais para manifestar a inteligência... De fato, o ponto que traz consequências filosóficas (no contexto da Filosofia Espírita) interessantes é o mito da Queda, quando meditamos a partir do ensinamento o Espírito precisa de órgãos materiais para manifestar a inteligência.

196. Não podendo os Espíritos aperfeiçoar-se, a não ser por meio das tribulações da existência corpórea, segue-se que a vida material seja uma espécie de crisol ou de depurador, por onde têm que passar todos os seres do mundo espírita para alcançarem a perfeição?
“Sim, é exatamente isso. Eles se melhoram nessa provas, evitando o mal e praticando o bem; porém, somente ao cabo de mais ou menos longo tempo, conforme os esforços que empreguem; somente após muitas encarnações ou depurações sucessivas, atingem a finalidade para que tendem.”

Parece haver dissonância com o mito? Na verdade não. O mito fala exatamente disso --- o ser individualizado na matéria.

Só para se ter uma ideia, na antiguidade chinesa se conta que uma estrela do céu caiu e trouxe consigo 1/3 de todas as estrelas... Na China...  Quando vemos alguns estudiosos dizendo que a cristandade é composta de mitos antigos agregados e deturpados, tendemos a não dar muita atenção; mas, ao que tudo indica, é mesmo assim.

O Espiritismo veio em um momento muito importante da evolução do ser humano. Creio que não abordou profundamente senão o que efetivamente é importante para o seu progresso, afinal não se prestaria a saciar meras curiosidades. Mesmo assim, seria impossível não tangenciar assuntos que tais.

Necessitar de órgãos materiais para manifestar a inteligência, parece-me, é um desses pontos de tangência nos ensinos antigos. Vale como ilustração: Max Heindel afirma que os "anjos" caídos se aproximam dos homens porque esses (homens) têm um cérebro físico. Lembremo-nos: estamos meditando sobre uma informação doutrinária.

A importância  reside na busca de uma compreensão maior da efetiva condição humana no Cosmos.

O ingresso no plano material é uma necessidade do Espírito sempre e sempre, sob pena de não conseguir manifestar a inteligência e, assim, não atingir a condição de seres passíveis de responsabilização por suas escolhas.

Então, o ingresso na matéria é necessário para a manifestação da inteligência porque o ser, tão somente na restrição absoluta da matéria, atinge a individualidade plena e passa a se reconhecer único e a ter noção clara de si. A Queda é apontada exatamente como a entrada na matéria.

O princípio inteligente em fase de humanização só vai atingir a plena individualidade e destacar-se do todo (tornar-se único) quando estiver na matéria sob a restrição máxima que permite essa individualização. O ser, tendo atingido a noção de si mesmo enquanto individualidade, experimenta o ímpeto de vivenciar a consciência e as escolhas que dela advêm. Pode mesmo ser verdadeira a tese de que estamos numa situação de exceção (Queda)? Podemos considerar a hipótese de que somos vórtices de extrema individualidade de um todo que, em outras circunstâncias, seguiria seu progresso sem adentrar nesses níveis tão profundos de segregação (individualização)?