quinta-feira, 31 de março de 2011

Quem é Lúcifer?

O Mal é apontado na Doutrina Espírita como a ausência do Bem. Em outras filosofias espiritualistas, o Mal é uma das faces da mesma moeda à qual antepõe-se o Bem. Assim, tanto por uma como por outra visão, a dualidade “Bem X Mal” é parte integrante do sistema filosófico adotado.

Ao longo dos séculos que se seguiram ao estabelecimento do Credo de Nicéia, a Igreja instituiu e sedimentou a imagem do Adversário como a personificação do Mal. Lançou-o à consideração de todos como o Diabo, Satã, Mefistófeles, enfim, como um anjo que, tendo sido o mais belo e mais sábio, tomou-se de vaidade e quis ser Deus.

Daí sua designação como “Lúcifer” – o “Portador de Luz”.

Neste mesmo Blog já abordamos algumas vezes a dualidade “Bem X Mal”. Agora, proponho o seguinte aspecto: “Quem” é (ou seria) Lúcifer?

As tradições antigas dos povos, tanto do Ocidente como do Oriente, comungam de uma mesma base mitológica quanto ao surgimento do homem. Variam nomes e aspectos ambientes, mas o mito é sempre mais ou menos o mesmo.

Com uma enorme diferença, todavia.

O Mal não é visto como a ausência do Bem, tampouco como a sua negação ou contraposição. É um aspecto do todo, e, juntamente com o Bem, comungam da essência do próprio Criador Manifesto.

Há um Criador incognoscível, não manifesto, anterior a tudo. Esse Criador não fica no Repouso Absoluto senão até o momento em que, manifestando sua Vontade, faz-se Criador Manifesto através das mônadas que de si emite. Assim da Mônada vêm as mônadas,

Uma longa descrição, em cada cultura dos povos antigos, parte daí até o momento em que deve o homem vir à existência.

Portador de uma mônada individualizada, necessita da matéria para restringir-se à individualização absoluta. Sente-se, assim, separado do todo e passa a reconhecer-se como ser.

Eis aí a sua “revolta”. Eis aí a “rebelião”. O homem sente-se único e identifica-se como um ser à parte. Nesse estrito sentido, “revolta-se” contra o Criador. A noção de si mesmo é o fruto da Árvore do Conhecimento.

Após a plena individualização, de que necessita o homem? Necessita ascender em retorno à Luz Absoluta, na espiral evolutiva que, fechando ciclos, parece retroagir mas continua subindo.

Qual o instrumento necessário para que o homem mude o curso descendente à matéria e retorne, após sua experiência como ser individualizado, à Fonte que o criou?

Esse instrumento é tudo o que o homem aprendeu a chamar de Mal...

É a dor que instrui o ser à manutenção de si mesmo, com os cuidados indispensáveis à própria conservação.

É a perda que obriga o ser à valoração das coisas que lhe vêm ao domínio.

É o medo que impede o ser de lançar-se aos devaneios aventureiros que a vontade traz.

É a humilhação que impele o ser à valoração de si mesmo, extirpando o orgulho que seduz e distorce.

É a violência que nos bate à face cada vez que tentamos burlar nossa consciência com os argumentos personalistas que ofendem nossa natureza espiritual.

E assim por diante...

Lúcifer? É o símbolo do anjo que veio até nós (caiu) para nos ensinar o retorno à Luz...

Não tenha dúvida... Essa história de “Príncipe das Trevas” é apenas para dominar pelo medo. As atrocidades que os homens cometem, cometem-nas por si mesmos, no exercício de sua liberdade de ação que a individualidade propicia.

É preciso acordar para a nossa integral responsabilidade. O Diabo é um pobre coitado que leva a culpa por tudo o que o homem tem vergonha de ter feito.


sexta-feira, 25 de março de 2011

Inteligência

Consoante O Livro dos Espíritos:


72. Qual a fonte da inteligência?
“Já o dissemos; a inteligência universal.”
a) - Poder-se-ia dizer que cada ser tira uma porção de inteligência da fonte universal e a assimila, como tira e assimila o princípio da vida material?
“Isto não passa de simples comparação, todavia inexata, porque a inteligência é uma faculdade própria de cada ser e constitui a sua individualidade moral. Demais, como sabeis, há coisas que ao homem não é dado penetrar e esta, por enquanto, é desse número.”
Há citações aqui e acolá no meio espiritualista sobre a inteligência do homem. Muitos defendem que o homem é um instrumento de manifestação do Pensamento Divino, filtrado e dimensionado consoante suas características emocionais e seus impulsos dominantes. Isso reduz a condição do espírito humanizado a um responder da Fonte Primária.

A citação acima evidencia que no âmbito da Doutrina Espírita essa visão é posta como uma simples comparação, todavia inexata. E o texto arremata: porque a inteligência é uma faculdade própria de cada ser e constitui a sua individualidade moral.

A Doutrina vincula, pois, a individualidade do ser, enquanto ser inteligente, à sua compleição moral. Mas não é isso a mesma coisa, dita por palavras diferentes? As características emocionais e os impulsos dominantes de um indivíduo são, na menor das perspectivas, um referencial bastante robusto de sua compleição moral. Os Espíritos são criados simples e ignorantes, segundo a Doutrina Espírita. Essa mesma doutrina ensina que o mal advém dos vícios e das paixões, os quais, por sua vez, advêm do instinto de conservação ("A Gênese" - consoante já abordado em vários posts neste mesmo Blog).

Então, conforme o ser progride espiritualmente faz opções de crescente complexidade, em sintonia com o aumento de sua responsabilidade. Mas, veja-se, a crescente responsabilidade depende diretamente do aumento da capacidade valoração moral, valoração essa que só é possível com o desenvolvimento da capacidade intelectiva...

Mais uma vez, a cobra morde o seu rabo e o fim confunde-se com o início.

domingo, 13 de março de 2011

A Transcendência do Ego

Vamos tomar de empréstimo uma parábola antiga.


O espírito sobe por uma montanha, obedecendo a um impulso inato e de sua própria essência. Progride e vai vencendo os obstáculos da escalada. Nem se dá conta de que a imensa montanha tem uma inclinação negativa, inclinação que torna impossível retornar.


O espírito segue, assim, até encontrar uma reentrância plana, grande e confortável. O pequeno platô na encosta da imensa montanha é grande o bastante para que o espírito aí encontre reconforto e descanso. Após refazer-se da longa jornada anterior, o espírito percebe-se um ser que está subindo por uma imensa montanha.


Sabe que veio lá de baixo, de onde não mais se recorda. Sabe, também, que não tem como voltar. Olha para a montanha à sua frente e vê que a subida é íngreme e as pedras são lisas, com poucos pontos de apoio.


Parte em sua jornada e seguidas vezes escorrega em pequenas quedas até a reentrância em que estacionara.


Vem-lhe o medo de continuar. Sabe que a cada tentativa foi mais longe, mas caiu... Sabe que deve subir mas que, sendo a subida ainda inclinada, depois de avançar bastante caso venha a cair não mais atingirá a reentrância, precipitando-se no abismo.


Depois de mais algumas tentativas, indo cada vez um pouco mais além, chega ao limite de suas possibilidades.


Vem-lhe a compreensão de que o pequeno mas importante platô em que se recolhe é o seu limite de individualidade. Entende que não é, de si para consigo, o suficiente para o enfrentamento da jornada de si mesmo nas ascensão.


Percebe, enfim, que sua individualidade não é o bastante para que consiga subir. Precisa de ajuda. Precisa de algo mais além de si para que possa continuar. Tem que transcender aos limites de sua individualidade para seguir adiante.


Mas não sabe exatamente a quem recorrer... Entende-se apenas um ser em progresso naquela árdua subida...


O cansaço se converte num leve alheamento de si mesmo. Torna-se uma serenidade que se insinua como um sono invencível, um torpor que seduz pelo conforto que consigo traz...


Deixa-se ir adiante e, sem entender, uma força o mantém firme na encosta para que possa tirar frutos de seu esforço.


Sobe... Sobe... Simplesmente avança...


No silêncio, na calma, na paz, percebe que existe algo que transcende os limites de seu ser. Algo que ainda não entende mas que é igualmente seu, tão essencial a si mesmo quanto a noção que tinha enquanto demorava-se na reentrância da montanha.


O espírito tem aí a sua experiência mística de transcendência de seu ego.

sábado, 5 de março de 2011

O Mito da Queda – Espiritismo – Novas Cogitações

O Mito da Queda está presente em toda a tradição antiga, com roupagens diferentes consoante a cultura, em cada momento e de cada povo. Com o advento do Espiritismo, máxime nas pesquisas e estudos catalogados na Revista Espírita, vemos manifestações que corroboram esse mito como símbolo de algo muito relevante nas bases filosóficas da Doutrina.

Eis o trecho (Revistra Espírita – 1858 – págs. 192/193):

MORTE DE CINCO CRIANÇAS POR UM MENINO DE DOZE ANOS.
PROBLEMA MORAL.

"Escreveu-se de Bolkenham, em 20 de outubro de 1857, que um crime apavorante foi cometido por jovem menino de doze anos. Domingo último, 25 do mês, três filhos do senhor Hubner, fabricante de pregos, e dois filhos do senhor Fritche, sapateiro, jogavam juntos no jardim do senhor Fritche. O jovem H..., conhecido por seu mau caráter, se associou aos seus jogos e convenceu-os a entrarem em um baú depositado em uma casinha do jardim e que servia ao sapateiro para transportar suas mercadorias para a feira. As cinco crianças puderam nele entrar com dificuldade, mas se comprimiram e se colocaram umas sobre as outras, rindo. Logo que nele entraram, o monstro fechou o baú, sentou-se em cima, e ficou três quartos de hora escutando primeiro seus gritos, depois seus gemi-dos.
"Quando, enfim, seus estertores cessaram, que os acreditou mortos, abriu o baú; as crianças ainda respiravam. Ele fechou o baú, aferrolhou-o e se foi brincar com papagaio de papel. Mas foi visto, saindo do jardim, por uma jovem. Concebe-se a ansiedade dos pais, quando perceberam o desaparecimento de seus filhos, e seu desespero quando, depois de longa procura, encontram-nos no baú. Uma das crianças vivia ainda, mas não tardou em entregar sua alma. Denunciado pela jovem que o havia visto sair do jardim, o jovem H... confessou seu crime com o maior sangue-frio e sem manifestar nenhum arrependimento. As cinco vítimas, um menino e quatro meninas de quatro a nove anos, foram enterrados juntos, hoje.
Nota. - O Espírito interrogado foi o da irmã do médium, morto há doze anos; mas que sempre mostrou superioridade como Espírito.
1. Ouvistes o relato que acabamos de ler da morte cometida na Silésia, por um menino de doze anos sobre cinco outras crianças? - R. Sim; minha pena exige que eu escute ainda as abominações da Terra.
2. Qual motivo pôde levar uma criança dessa idade a cometer uma ação tão atroz e com tanto sangue-frio? - R. A maldade não tem idade; ela é ingênua numa criança; é raciocinada no homem feito.
3. Quando ela existe numa criança, sem raciocínio, isso não denota a encarnação de um Espírito muito inferior? - R. Ela vem, então, diretamente da perversidade do coração; é o seu Espírito que o domina e o leva à perversidade.
4. Qual poderia ter sido a existência anterior de um Espírito semelhante? - R. Horrível.
5. Em sua existência anterior, ele pertencia à Terra ou a um mundo ainda mais inferia? - R. Não o vejo bem; mas devia pertencer a um mundo bem mais inferior que a Terra: ele ousou vir à Terra; por isso será duplamente punido.
6. Nessa idade a criança tinha bem consciência do crime que cometia, e dele tem a responsabilidade como Espírito? - R. Ele tinha a idade da consciência, é bastante.
7. Uma vez que esse Espírito havia ousado vir à Terra, que é muito elevada para ele, pode ser constrangido a retornar para o mundo em relação com a sua natureza? - R. A punição é justamente de retroceder; ele mesmo é o inferno. É a punição de Lúcifer, do homem espiritual rebaixado até a matéria; quer dizer, o véu que lhe esconde, de hoje em diante, os dons de Deus e sua divina proteção. Esforçai-vos, pois, para reconquistar esses bens perdidos; tereis ganho o paraíso que o Cristo veio vos abrir. É a presunção, o orgulho do homem que gostaria de conquistar o que só Deus pode ter.

Nota. - Uma observação é feita a propósito da palavra ousou, da qual se serviu o Espírito, e dos exemplos que foram citados concernentes à situação de Espíritos que se encontraram em mundos muito elevados para eles, e que foram obrigados a retornar para um mundo mais em harmonia com a sua natureza. Uma pessoa fez notar, a esse respeito, que foi dito que os Espíritos não podem retrogradar. A isso respondeu que, com efeito, foi dito que os Espíritos não podem retrogradar no sentido de que não podem perder o que adquiriram em ciência e em moralidade; mas eles podem decair como posição. Um homem que usurpe uma posição superior àquela que lhe conferem suas capacidades ou sua fortuna pode ser constrangido a abandoná-la e retornar ao seu lugar natural; ora, não está aí o que se pode chamar decair, uma vez que não fez senão reentrar em sua esfera, de onde saiu por ambição ou por orgulho. Ocorre o mesmo com respeito aos Espíritos que querem se elevar muito depressa nos mundos onde se encontram deslocados.
Espíritos superiores podem igualmente se encarnar em mundos inferiores, para irem cumprir uma missão de progresso; isso não pode chamar-se de retrogradar, porque é devotamento.
8. Em que a Terra é superior ao mundo ao qual pertence o Espírito do qual acabamos de falar? - R. Nele há uma fraca idéia da justiça; é um começo de progresso.
9. Disso resulta que, em mundos inferiores à Terra, não há nenhuma idéia de justiça? - R. Não; os homens aí não vivem senão para eles, e não têm por motivação senão a satisfação de suas paixões e de seus instintos.
10. Qual será a posição desse Espírito em uma nova existência?
- R. Se o arrependimento vier apagar, senão inteiramente pelo menos em parte, a enormidade de suas faltas, então ele permanecerá na Terra; se, ao contrário, ele persistir nisso que chamais a impenitência final, ele irá para uma morada onde o homem está no nível do animal.
11. Assim, pode ele encontrar, sobre essa Terra, os meios de expiar suas faltas sem ser obrigado a retornar para um mundo inferior? - R, O arrependimento é sagrado aos olhos de Deus; porque é o homem que julga a si mesmo, o que é raro em vosso planeta.


Quando abordo a Queda como interessante ao estudo da condição humana, aponto para a natureza rebelde (o Anjo Rebelde - a Rebelião de Lúcifer) de quem, tendo atingido a noção de si mesmo enquanto individualidade, experimenta o ímpeto de vivenciar a consciência e as escolhas que dela advêm...

O Mito do anjo decaído, segundo muitos, representa a descida do Espírito à carne. Ocorre que é a Codificação que nos ensina que o Espírito necessita da matéria para desenvolver a inteligência.

71. A inteligência é atributo do princípio vital?

“Não, pois que as plantas vivem e não pensam: só têm vida orgânica. A inteligência e a matéria são independentes, porquanto um corpo pode viver sem a inteligência. Mas, a inteligência só por meio dos órgãos materiais pode manifestar-se. Necessário é que o Espírito se una à matéria animalizada para intelectualizá-la.”

É por demais relevante à compreensão de nosso estágio enquanto humanidade essa "descida" à matéria para manifestar a inteligência. Por que somente através de órgãos materiais pode a inteligência se manifestar?

Talvez porque essa manifestação de inteligência, referida na própria Doutrina, seja concernente à inteligência de um ser plenamente individualizado, portanto distinto da Inteligência que compõe o princípio inteligente.

Sendo assim, seria a Queda o caminho natural do progresso do ser que se inicia na fase de humanização (pergunta 607-A do LE)?

Quando abordo o mito da Queda, refiro-me à noção que existe em todos os povos, desde a mais remota antiguidade, do simbolismo da descida da essência espiritual ao plano denso da matéria física. Não apenas reencarnações.

A Humanidade deste planeta desceu à matéria porque necessitava de órgãos materiais para manifestar a inteligência. Independentemente de serem necessárias várias encarnações, o que fascina é a informação passada pelos Espíritos Superiores no âmbito da Doutrina Espírita --- o Espírito necessita de órgãos materiais para manifestar a inteligência.

Por que? O que isso tem a ver com a Queda? Tudo...

Imagine o princípio inteligente em fase de humanização. Só vai atingir a plena individualidade e, assim, destacar-se do todo e tornar-se único, quando estiver na matéria sob a restrição máxima que permite essa individualização. Ora, o princípio inteligente é o "anjo" que desejou ser Deus... Desejou ser... Simplesmente desejou ter sua própria identidade, delimitando-se do todo --- ser único, como único é somente Deus...

Um aspecto também encontradiço nas tradições é a condição humana ser apresentada como algo excepcional – não no sentido de “bom”, mas de exceção mesmo, no concerto da Harmonia que advém do Pensamento do Criador. Em todos os povos a tradição sempre e sempre aponta para um "alguém" muito elevado que nos tomou em sua consideração para a recondução à "normalidade"...

Nada disso viria à tona nos estudos espíritas não fosse pela informação: o Espírito necessita de órgãos materiais para manifestar a inteligência... De fato, o ponto que traz consequências filosóficas (no contexto da Filosofia Espírita) interessantes é o mito da Queda, quando meditamos a partir do ensinamento o Espírito precisa de órgãos materiais para manifestar a inteligência.

196. Não podendo os Espíritos aperfeiçoar-se, a não ser por meio das tribulações da existência corpórea, segue-se que a vida material seja uma espécie de crisol ou de depurador, por onde têm que passar todos os seres do mundo espírita para alcançarem a perfeição?
“Sim, é exatamente isso. Eles se melhoram nessa provas, evitando o mal e praticando o bem; porém, somente ao cabo de mais ou menos longo tempo, conforme os esforços que empreguem; somente após muitas encarnações ou depurações sucessivas, atingem a finalidade para que tendem.”

Parece haver dissonância com o mito? Na verdade não. O mito fala exatamente disso --- o ser individualizado na matéria.

Só para se ter uma ideia, na antiguidade chinesa se conta que uma estrela do céu caiu e trouxe consigo 1/3 de todas as estrelas... Na China...  Quando vemos alguns estudiosos dizendo que a cristandade é composta de mitos antigos agregados e deturpados, tendemos a não dar muita atenção; mas, ao que tudo indica, é mesmo assim.

O Espiritismo veio em um momento muito importante da evolução do ser humano. Creio que não abordou profundamente senão o que efetivamente é importante para o seu progresso, afinal não se prestaria a saciar meras curiosidades. Mesmo assim, seria impossível não tangenciar assuntos que tais.

Necessitar de órgãos materiais para manifestar a inteligência, parece-me, é um desses pontos de tangência nos ensinos antigos. Vale como ilustração: Max Heindel afirma que os "anjos" caídos se aproximam dos homens porque esses (homens) têm um cérebro físico. Lembremo-nos: estamos meditando sobre uma informação doutrinária.

A importância  reside na busca de uma compreensão maior da efetiva condição humana no Cosmos.

O ingresso no plano material é uma necessidade do Espírito sempre e sempre, sob pena de não conseguir manifestar a inteligência e, assim, não atingir a condição de seres passíveis de responsabilização por suas escolhas.

Então, o ingresso na matéria é necessário para a manifestação da inteligência porque o ser, tão somente na restrição absoluta da matéria, atinge a individualidade plena e passa a se reconhecer único e a ter noção clara de si. A Queda é apontada exatamente como a entrada na matéria.

O princípio inteligente em fase de humanização só vai atingir a plena individualidade e destacar-se do todo (tornar-se único) quando estiver na matéria sob a restrição máxima que permite essa individualização. O ser, tendo atingido a noção de si mesmo enquanto individualidade, experimenta o ímpeto de vivenciar a consciência e as escolhas que dela advêm. Pode mesmo ser verdadeira a tese de que estamos numa situação de exceção (Queda)? Podemos considerar a hipótese de que somos vórtices de extrema individualidade de um todo que, em outras circunstâncias, seguiria seu progresso sem adentrar nesses níveis tão profundos de segregação (individualização)?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Livro de Jó --- Desafios

Muitos entendem que o Livro de Jó é um Mito representativo da iniciação humana na abnegação dos valores ilusórios em prol dos dons magnos da alma.

Uma meditação:

A vida é cheia de desafios... O tempo é a força que arrasta consigo todas as situações que nos fazem rir, chorar, meditar, enfim viver... Mas sempre e sempre a vida nos traz desafios, alguns menores, outros muito assustadores...


Que fazer acerca do que não pode ser evitado? Que fazer? Quando algo ruim acontece é simplesmente assim: acontece e fica gravado na realidade... E nada, rigorosamente nada pode apagar para tentar reescrever o passado...


Muitas pessoas simplesmente se desesperam ou se revoltam. No desespero buscam uma magia inimaginável, como se houvesse poder no choro lancinante... Na revolta bradam por um culpado, qualquer um, para que a ira, o medo, o desencanto possam descarregar-se, seja por violência, seja por asco, seja por nada haver mais no vibrar na alma...


Mas, de que adianta se a vida é mesmo cheia de desafios? Que importa, se viver significa essencialmente arrostar, aqui e acolá, o dissabor de um desafio surpreendente e para o qual não existem alternativas?


Não existe “se”; apenas “quando”...


Enfim... Os desafios vêm e não adianta fazer nada para tentar mudar a nossa condição de desafiados... Resta-nos o enfrentamento, o combate, a luta, o vigor, a busca de forças exatamente no momento em que sentimo-nos fracos e suscetíveis... Resta-nos a certeza de que ninguém virá com uma varinha de condão... Resta-nos simplesmente viver...


A maior vingança que podemos alcançar é vencer o desafio! O maior soco que podemos dar bem no meio dos olhos desse destino insano que nos arrasta para a dor e o sofrimento é devolver-lhe, com ainda mais força, a rebentação das ondas através da única barragem inexpugnável que existe: nossa coragem!


Só mesmo podemos lutar e lutar e lutar... Se pararmos e desistirmos, teremos sucumbido à vida e seremos simples derrotados, réprobos, almas inservíveis à estima de quem nos envia a dor como manto de coroamento.


O diamante se forma pela pressão hedionda com que a montanha comprime a sujidade do carvão... O grão de areia que fere e perturba a ostra tão frágil leva-a a adornar-se na proteção de uma pérola brilhante...


E a alma humana... Só mesmo a dor dos desafios pode nos tirar do conforto em que nos demoramos sempre que a lição anterior já havíamos terminado... Um novo desafio é a certeza de que já vencemos o destino antes! É a declaração absoluta de que podemos mais! É o chamado do alto que evita nosso olhar de cansaço! É a vida vibrando em nossa alma para que sejamos daqui a algum tempo melhores do que somos hoje, e muito melhores do que fomos ontem.


Não adianta chorar... A vida é cheia de desafios...

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Tudo é ilusão --- A tese do Ego "artificial"

Há quem entenda que a mente consciente (ou seja, um Espírito encarnado em estado de vigília física ordinária) é um personagem vivido pelo "eu superior" (ou "eu verdadeiro"): o Ego.

O Ego é elevado, assim, a uma categoria muito estranha: um falso ser, uma persona (máscara) que, embotando nosso ser verdadeiro, passa a comandá-lo e faz com que nosso "eu verdadeiro" se confunda com ele e pense ser ele...  Estranho mesmo...

Há vídeos na internet que sugerem uma ideia ainda mais pitoresca. O Ego é como um narrador de jogo de futebol (nada menos que isso!); o seu "eu verdadeiro" é o telespectador --- ele ouve e vê o que o narrador diz e mostra. Como isso é assim o tempo todo desde que nascemos, terminamos achando que somos o narrador.

Essa tese mirabolante tem inúmeros defensores.

Ofereço a seguinte contradita.

Dizer que o Ego é um ser à parte, um personagem fictício engendrado que, inclusive, demanda contra a reconquista do "eu verdadeiro" é uma tese que considero, no mínimo, inverossímil... Claro que os companheiros defensores da tese do "Ego artificial" dirão que isso é o meu Ego que está dizendo...

O que de mim exala como resultante de minha bagagem e de todas as minhas circunstâncias é o que sou enquanto Ego, sim, mas é um aspecto instrínseco ao meu ser nos exatos contornos que a minha situação evolutiva permite nesse momento... Não existe um fantasma distanciado de mim... Sou eu mesmo...

Quando estiver em um nível de consciência que me permita recordar plenamente, digamos, umas cinco encarnações, não terei dúvidas em identificar diferenças entre o comportamento assumido em cada uma delas... Nem por isso terá deixado de ser o mesmo Espírito, com todas as peculiaridades, bagagem e circunstâncias a definirem padrões diversos de conduta.



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Tudo são vibrações... A Música é Arte...

A música, segundo os rudimentos clássicos da Teoria Musical, divide-se em Melodia, Harmonia e Ritmo.

O ritmo demarca na alma a sensibilidade para toda uma fenomenologia cíclica. Sons mais graves obedecendo a um regramento matemático em ciclos bem delineados, fazem a alma entrar em ressonância e daí experimentar estados que, segundo o grau evolutivo do ser, serão de maior ou menor envolvimento conforme se cuide de um ritmo mais ou menos vibrante.

A melodia é o canto que, sem palavras, insinua-se em meio ao ritmo dando-lhe o enredo de alegria, tristeza, ira, drama, senso edificante, enfim, é a personalidade da música, sua identidade.

A harmonia é a aura da música. É a atmosfera de acordes e arpejos que, ao sabor da melodia, preenche tudo o mais que não seja o ritmo e a própria melodia.

A música composta com propósitos espirituais traz ao homem precioso instrumento indutor do estado de alma extraído da experiência mística daquela manifestação artística.

Ouça Pomp and Circunstance... Impossível não se envolver pela sensação de realização espiritual...

Brandenburgo nº III é de uma Paz Operosa, dignificando o labor sob o prazer de realizar...

Alpha, de Vangelis, é uma belíssima incursão do ritmo na melodia, enriquecida por uma harmonia difusa que só o estilo "new age" permite.

O Adágio da Sonata ao Luar, por Deus! É um arpejo singelo em que uma simples melodia desnuda que o brilho intenso da mais pura luz não exige a sofisticação das fusas e semifusas...

Há miríades de citações que poderiam ser feitas...

Música é a Arte de expressar a essência de um sentimento por meio dos sons.