domingo, 15 de maio de 2016

A RODA DA VIDA

Já tive oportunidade de escrever sobre a simbologia do Tarot, tomando por base a variante mais conhecida, o Tarot de Marselha. O Arcano 10, tradicionalmente chamado “A Roda da Fortuna”, designo-o como “Os Ciclos”. De fato, a natureza se manifesta em ciclos. Tudo são ciclos. As oportunidades surgem e se fecham consoante os ciclos de cada ente envolvido. As conquistas perante o mundo (a tudo o que se dá o devido valor, vem-nos por acréscimo da missão a se cumprir), oportunidades que surgem, boa sorte, mas também frustração, fechamento das oportunidades, perdas. O mais importante é que na Vida, entendida esta como algo muito além de nossa jornada no seio de uma existência física, neste plano material, está sempre e sempre a nos proporcionar as experiências indispensáveis ao nosso aprimoramento espiritual. Simplesmente porque é essa a finalidade da Vida.

Deus, concebido em nossa limitadíssima percepção como a Harmonia Universal, que sustenta o todo existencial no seio de Seu Pensamento, deflagra a grande explosão que espraia de Si o início da Grande Obra. Desde então surge a Natureza, a Divindade Manifesta, e, inapelavelmente, a Roda da Vida começa a girar.

Entre o microcosmo dos ainda insondáveis mistérios quânticos ao macrocosmo dos não menos misteriosos parâmetros relativísticos, o homem se embala numa faixa pequena de vibrações de som, luz e densidade. Vive numa microscópica fresta do espectro em que a Natureza se agiganta. Mas vive sob o mesmo império do Verbo, da Vontade Divina, que aqui faz cristais minerais abrirem gemações como flores, para surpresa de geólogos, muitos descrentes tão só por se acostumarem a vislumbrar ali um “fenômeno natural”.

A Vida amolda manifestações progressivamente mais individualizadas, de simples algas azuis ao desconcertante cérebro humano, como que num caprichoso jogo de ilusionismo para os mecanicistas carentes de melhor explicação à matéria que vive e se aperfeiçoa.

Enfim... A Vida nos impulsiona continuamente para que a centelha divina que nos dota da condição exatamente de vivos, siga adiante em suas infinitas possibilidades de ascensão em todos os setores que, em cada momento, possam ser mais bem lapidados.

Tempestades cortam os céus com raios e chuvas intensas. A dor e eventuais destruições causadas só nos parecem caóticas porque não atentamos para a necessidade de manutenção do ciclo das águas que, dentre tantos aspectos, limpam a atmosfera, lavam superfícies e carregam consigo invisíveis esporos de vida primitiva mas perniciosa aos organismos mais complexos.

O mesmo sol que, sob descuidada busca por tons acobreados à pele causa melanomas, é absorvido pelo fitoplâncton mantendo abastecida a atmosfera com o oxigênio indispensável.

E no contexto essencialmente humano, na conduta, no comportamento, no aprendizado dos valores magnos da Vida, para os quais sequer boas definições temos, a Vida nos embala sob o mesmo e intenso ardor. A pessoa passa pela dor e aprende a evitá-la. Passa pelas perdas e aprende a cultivar carinho e atenção. Passa por todos os medos para desenvolver o senso de confiança transcendente, aprendendo a antever a Harmonia mesmo ainda incompreendida.

Eis aí a chave para compreender o Arcano 10 do Livro de Toth.

Nós passamos por todos os medos que a Vida nos traz para desenvolvermos o senso de confiança transcendente, aprendendo a antever a Harmonia mesmo ainda incompreendida.


"Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas necessidades vos serão dadas por acréscimo". (Mt 6, 24-34)

sábado, 7 de maio de 2016

EsoSounds - Animus Saturni


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita...

Desborda da concepção tradicional desse ensinamento um de seus aspectos, talvez, o mais relevante. O combate aos exageros da vaidade que, quase sempre, levam a um exacerbado personalismo tem raízes bem mais profundas que o aprendizado cosmoético em seu caráter formal.
A Lei da Unidade já foi abordada sobejas vezes nos textos esotéricos das mais variadas correntes espiritualistas, em todos os tempos e culturas. No entanto, tal qual o vislumbre faiscante de uma inspiração, certas verdades simples só vêm à mente como o corolário de uma normalmente longa série de vivências que cada ser ultrapassa na luta de seu dia a dia.
Sim, não basta anunciar uma verdade. Não é suficiente demonstrar essa verdade com bem alicerçados fundamentos. Só mesmo depois que a Vida sucede com sua Alquimia impiedosa, submetendo a Alma ao solve et coagula, essa verdade se desnuda do chumbo fosco para uma áurea percepção tão instantânea quanto o primeiro brilho lançado ao olhar do atônito iniciado.
Bem e Mal são aspectos de uma mesma realidade. Conquanto reais e efetivos cada qual em seus momentos de expressão, guardam na essência a comunhão da origem: a Harmonia Universal.
Não precisamos nos alongar nos meandros filosóficos intermináveis que daí poderíamos facilmente extrair. Seja como for, o ser humano, mal saído da plena animalidade, experimenta, quase sempre sob confusas ideações, sequências mais ou menos longas de consciência lúcida consoante a experiência na Vida assim invoca de sua essência anímica.
A mente insipiente nas maravilhas do intelecto é como uma CRIANÇA que abre uma imensa caixa com miríades de brinquedos, todos diferentes e muito atrativos. Conforme o Uno Impessoal manifesto em cada ser movimenta a centelha em seu crescimento e força, essa criança se apega aqui e acolá, neste ou naquele grupo de brinquedos. Toma de alguns para guarda-los egoisticamente sob um dos braços enquanto, com a outra mão, agita-se na ansiedade de não deixar passar, talvez, algo ainda mais fascinante.
Busca e busca ao mesmo tempo em que brinca com os preferidos. Confunde-se ao atirá-los longe sob o desesperado anseio de ir logo buscá-los de volta. Vez por outra, cansa-se e se apaixona por outros que, afinal, como não pudera ainda ter notado?
A Alma humanizada é uma CRIANÇA ávida por algo que não tem a menor condição de definir.
Mas aprende logo que algumas experiências com as coisas da Vida trazem maior prazer que outras, ao mesmo tempo em que descobre um fenômeno com o qual terá que conviver praticamente todos os dias: a dor. A dor, sem seu sentido mais amplo. A dor de perder algo que muito desejava. A dor de perder por esquecer-se. A dor de perder por ter atirado longe demais. A dor de ter tentado manter algo insustentável por suas forças. Enfim, a dor.
Outra dor lhe é apresentada pela Vida. Descobre-se como alguém que tem mais alguém consigo, igualmente ávido pelas coisas da Vida que deveriam, é claro, ser apenas e tão somente dela. Quem é esse outro alguém que simplesmente vem e vai pegando “suas” coisas?
A Alma humanizada é uma CRIANÇA e, como tal, é muito egoísta.
Bem por isso, a forma de lidar com as coisas varia quase ao infinito. No mesmo passo, o modo de encarar, de conceber, de perceber o mundo à volta baila ao sabor do gosto pessoal. Não é diferente com a noção de certo e errado, de Bem e de Mal.
Que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita...
A realização da Obra passa por toda sorte de idiossincrasias. A Harmonia Universal, no mais saboroso paradoxo dos místicos, manifesta-se exatamente naquilo que costumamos designar como “o caos”. A entropia é uma grandeza da mais ortodoxa ciência. Aliás, observe uma imagem, digamos, de 20m por 20m, com o nariz a um centímetro do centro. A cabeça fixa, apenas com o volver dos olhos, observe essa imagem e tente descrevê-la. Agora pense no que veria se estivesse, por hipótese, a uns 50m dessa mesma imagem.
O caos é a ignorância dos contornos exatos de um sistema. O caos é a percepção limitadíssima de uma ínfima parcela da Harmonia Universal.
Mas existe a Harmonia Universal. Apesar de todas as idiossincrasias e autênticas sandices humanas, tudo e todos estão inseridos em um sistema que leva a tudo e a todos na correnteza da Vida.
Até mesmo as coisas mais aparentemente ignóbeis. Até mesmo as monstruosidades. Até mesmo o Mal.
No transcorrer do desenvolvimento humano, em decorrência do Aprendizado a que deve se submeter pela Vontade do Criador, cada centelha da Vida se agita e vai angariando maior consciência. Porém assim não é senão à conta das experiências, muitas de sabor desagradável, que se sucedem nas (infinitas?) eras, milênios, séculos, décadas, enfim, no concerto do Eterno. O que é agradável à sensibilidade imediata, e esse é um caráter mais ou menos constante da própria vida humana, raramente é edificante dos valores cosmoéticos que o ser, desejando ou não, termina por aquinhoar.
A criança experimenta um alimento saboroso e, desde que não impedida, comê-lo-á até que o organismo não mais suporte. O homem ainda tem muito dessa criança em si. Busca e busca. Seus olhos nunca se cansam de ver, como ecoa Tomás de Kempis com Provérbios 27:20.
A Vida ensina os contornos do bom-senso do único modo capaz de convencer em definitivo a Alma. Não será sob castigo ou ameaças que o homem deixará de fazer ou de omitir-se, mesmo com toneladas de avisos, ensinos, iniciações, cátedras e mais cátedras. Só a experiência, a reiteração, a livre condução diante dos fatos e circunstâncias do mundo é que cada ser humano delineia em si os valores profundos que, sob estertores ou no mais abismal silêncio, passam a compor sua própria essência.
E isso leva tempo. Coisa que o Eterno tem de sobra.
Em meio à sua jornada, o homem nada atavicamente no rio da Vida como um peixe. Num momento a favor da correnteza, noutro contra, mais acima, mais abaixo, com rapidez, lentamente. Mas jamais, nunca, por força alguma, deixará de nadar estritamente no traçado do rio. O rio da Vida lhe garante o livre arbítrio do uso de suas nadadeiras, mas o mantém sob a correnteza e no exato lugar que, minuto a minuto, faça ele por merecer estar no traçado das águas.
O rio da Vida varia em trechos entrecortados, estreitos, largos, fundos, raros, com muitas ou poucas pedras. Em sua viagem, o homem adota a postura que lhe parece a melhor em cada fase. O mais interessante é que faça o que fizer, aja como agir, estará no lugar certo no momento exato. Mesmo quando se põe ao fundo, junto ao leito lodoso, escuro, absorvendo o aprendizado do quão menos dificultosa é a navegação mais alta e sob claridade. Entrelaçam-se infinitas possibilidades e o homem, por um lindo capricho da Vida, por vezes deixa o fundo e, seja por seu mero exemplo ou por efetiva interação, evita que outrem continue em sua pretensão de descida. A Vida muitas vezes é encantadoramente poética.
Não houvesse alguém se precipitado no abismal egoísmo e não seria possível evitar que outros desencantados trilhassem a mesma tragédia. Felizmente não são poucos os que se convencem integralmente pelo exemplo tristemente assistido de quem precipitou-se e protagoniza a agonia do retorno.
Mas o rio da Vida é a manifestação da Criação. Não será por outro motivo que a Natureza mantém peixes e peixes, homens e homens, Almas e Almas. O abismal habitante do nicho profundo das águas turbulentas e escuras é instrumento tão importante e indispensável quanto qualquer outro no concerto da Harmonia Universal.  
Que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita...
Os que escolhem o Caminho da Mão Esquerda, tenham ou não consciência do que sejam diante do Criador, estão sempre e sempre sob a mesma Harmonia Universal que é a Vondade de Deus. Ignoram seguidas vezes o imenso Bem que fazem aos que optam pelo Caminho da Mão Direita. Tampouco esses imaginam o tanto que têm a agradecer a seus irmãos de senda invertida.
Esse texto tem apenas a pretensão de agradecer a TODOS os seres que Deus criou, sem nenhuma exceção. Como cantava Raulzito, o Bem e o Mal num romance astral.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Identidade de Gênero

A questão da, assim chamada, identidade de gênero (ou, consoante terminologia psicológica, Transtorno de Identidade de Gênero) vem sendo objeto de ampla considerações em vários setores da sociedade. Concernente a aspectos personalíssimos, desdobra-se em acalorados debates. As abordagens da ciência ortodoxa têm sido bem abstratas, não se atendo a considerações de cunho ético conquanto, como em tudo o mais, não se possa conceber valorações desse jaez sem o concurso dos elementos valorativos culturais, momento a momento, no concerto da evolução que experimenta o ente coletivo.

A Psicologia afirma que o indivíduo não se restringe ao seu corpo físico, podendo ter de si uma identificação que dele destoa quanto ao gênero. Sem qualquer pretensão quanto ao conteúdo científico dessa asserção, cabe ponderar aspectos que tocam ao comum das pessoas, consoante a experiência do dia-a-dia e seu matiz essencialmente cultural conforme o momento atual.

A identificação que uma pessoa tenha com gênero sexual diferente de seu próprio fenótipo é um fenômeno que, no mínimo, não é o mais comum. Mesmo evitando tecer valorações éticas, impossível deixar de meditar acerca do caráter “normal” ou não de uma identificação assim. Na transexualidade, diz-se, o indivíduo é, por exemplo, uma mulher no corpo de um homem. Imagina-se que seja algo torturante. Se não, ao menos inconveniente em muitos momentos.

Até onde é lícito considerar normal uma identificação psicológica distinta da fisiológica? Claro que ninguém cogita de imputar-se um “demérito” pela existência de tal divergência entre o físico e o anímico. Mas é, de fato, consistente considerar que é perfeitamente normal uma pessoa ter uma estrutura psicológica diferente de sua base fisiológica?

Quando uma pessoa se vê obesa diante do espelho mas, objetivamente, é possível constatar que se trata de alguém até mesmo abaixo do peso, segundo seu índice de massa corpórea, como se denomina isso? Dismorfia Corporal, ou Transtorno Dismórfico Corporal.

O fato do fenômeno ter um nome não conduz a nenhuma solução. Não obstante, deixa claro que é um fenômeno catalogado, sem dúvida, na mesma pasta de outros transtornos psicológicos. No caso da dismorfia corporal, inclusive, a psicoterapia é o tratamento indicado.

Então, temos um transtorno em que o indivíduo tem uma falsa percepção de si mesmo, no mais das vezes, quanto ao peso. Por que essa percepção desvencilhada da realidade objetiva é um transtorno? Creio que a melhor resposta seja: exatamente porque está desvencilhada da realidade objetiva.

No caso do gênero tudo deve ser considerado sob outro talante? Por que? Enfim, busquemos outras comparações até com transtornos menos drásticos.

Raramente no convívio de um grupo, seja na escola ou no trabalho, deixará de ter alguém que esteja sempre em busca de atenção, tendente às dramatizações, sob um afetado clima de forçada intimidade. Quando tais características se tornam constantes na conduta dessa pessoa, diz-se que ela tem Transtorno de Personalidade Histriônica. Ora, aqui a falsa percepção da realidade objetiva é bem menos intensa do que, como já vimos, no caso do Transtorno Dismórfico Corporal. Mesmo assim, por ser uma percepção errônea, constitui igualmente um transtorno de personalidade.

O que se pretende abordar é que a percepção errônea acerca da realidade objetiva é o fator determinante do transtorno da personalidade. Como transtorno, merece abordagem enquanto situação anômala, sem nenhum demérito de ordem moral tampouco qualquer pretensão a uma formulação preconceituosa de menosprezo.

O que não parece correto é, exatamente, tentar dar ares de “odiosa intolerância” à postura de quem considera que um transtorno da personalidade seja algo que reclama tratamento.

A sociedade vem assistindo a um aumento desmedido na construção do conceito de que o sujeito que tem Transtorno de Identidade de Gênero deve ser mantido “à salvo” de quaisquer opiniões sobre o simples fato de ele ter um transtorno da personalidade. 

Tanto menos aceitável é a tese que vem se desenhando em vários setores da sociedade no sentido de que deve ser deixado a uma criança livremente “escolher” se vai ou não assumir a identidade de gênero que lhe advém do próprio corpo físico.

As pessoas que se vitimam por quaisquer transtornos da personalidade não optaram por ser, digamos, histriônicas, paranoicas, dismórficas, tampouco por divergirem do gênero de seu fenótipo. Vale repisar, são pessoas que sofrem de transtorno de personalidade. Não é uma mera questão de “preferir” isso ou aquilo.

Um adulto, senhor de si, que sofra de Transtorno de Identidade de Gênero e não deseje buscar tratamento, que assim delibere sobre sua própria vida. Mas daí não se conclui que uma criança possa ser deixada ao sabor de um transtorno de personalidade como se fosse a mera expressão de sua vontade consciente.

Se uma hipotética criança magra chora e se desespera por se ver ao espelho como excessivamente gorda, não há mínima razoabilidade em interpretar-se que ela está optando por ser gorda. Se a criança demonstra grande carência afetiva, não é possível imaginar-se que ela está livremente optando pelo cultivo de uma exacerbada sensibilidade gótica. 

Uma criança do sexo masculino que demonstre estar na assunção de comportamento feminino, independentemente de quaisquer valorações éticas, deve ser levada à consideração de um profissional habilitado a analisar se é vítima de Transtorno de Identidade de Gênero. E não deve ser outra a atitude desse profissional senão esclarecer os responsáveis pelo tratamento adequado.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

RELIGIOSIDADE e ESOTERISMO

A queda da religiosidade entre os indivíduos ao menos medianamente instruídos tem sido observada em todas as culturas. É cada vez mais comum que a composição dos profitentes dessa ou daquela fé tenha preponderância de pessoas de crítica menos apurada, com menor cabedal de conhecimentos, ainda que não se tenha aqui uma regra absoluta.

Mas não se trata de elitismo. Simplesmente não se aventa da aceitação de preceitos religiosos por quem neles vê alguns ou muitos conceitos que atentem contra seus conhecimentos.

Não por outra razão há quem defenda a necessidade de manutenção do ensino dos Mistérios Menores aos que deles possa conhecer. Os Mistérios Maiores desde sempre ficaram e ficarão restritos a uns poucos.

Paralelamente ao descrédito dos conceitos religiosos apenas superficialmente considerados, cresceu também um autêntico preconceito contra as doutrinas iniciáticas, não importa a origem. Ou são consideradas corporações de pessoas mal intencionadas, ou são tidas à conta de agrupamentos de pervertidos, interessados em cultos satânicos ou sexualmente degenerados. Isso quando não são considerados grupos de incautos, ingênuos, ou esquizofrênicos paranoides.

Algumas correntes menos aprofundadas contribuíram para essa visão distorcida, é bom reconhecer.

Pululam indivíduos desejosos de pertencer a algum tipo de grupo especial, sob rituais que lhe pareçam interessantes, até mesmo por uma indumentária exótica. Há os que se reúnem em florestas com caldeirões de ferro a fim de invocar espíritos da natureza e cozinhar elixires e outras beberagens. Se um dia tal procedimento esteve sob o conhecimento dos Mistérios que envolvem toda e qualquer busca espiritual, certamente não será reproduzindo uma mera e epidérmica encenação que as pessoas alcançarão o conhecimento esotérico que jaz sob determinados rituais bem menos cinematográficos.

Ainda outros pretendem, mesmo, estreitar vivência com a senda esquerda, desejosos de um poder que imaginam ilimitado por concessão de algum demônio serviçal. Grande perigo reside nisso, não por exposição a uma pretensa horda de monstros infernais, mas por sintonia e mútua simbiose com tantos quantos, pensando na mesma frequência, já não estão no plano físico. Tornam-se cegos guiando cegos, obsessores mutuamente imantados, com todos os prejuízos que advêm de tal desatino.

Bem por inconsequentes atitudes como essas, muitos mesmo hoje em dia, ecoando com postura antiga sob fundamento diverso, defendem que não se deve propiciar o estudo dos Mistérios a fim de evitar tais ou quais desatinos, mantendo as pessoas longe de assuntos que as exporiam a consequências ruins. Mas isso significa privar de luz quem tem bons olhos para vê-la. E pior. Como já mencionado, isso faz com que os preceitos religiosos fiquem tão superficiais para os que têm olhos de ver que o descrédito recai sobre a religião em si, tornando-a decadente.

O que dá sustentação a uma doutrina religiosa é a autoridade do conhecimento. A fé, a devoção, o transcendente, sem dúvida, compõem a religiosidade. Mas é a autoridade do conhecimento que faz com que aquela doutrina mantenha a sua finalidade universalista, mantendo sua esfera de atuação em todos os estamentos da sociedade. 

Se para muitos a expressão de ensinos imperativos basta e é o quanto assimilável, para não poucos somente a compreensão externada em aspectos mais ricos é indispensável. Mesmo nos meandros mais profundos, ainda outros tantos mantêm-se firmes em suas convicções por saberem presentes em sua fé aqueles em quem reconhece erudição. Esse último ponto é de extremo relevo. Conquanto não pareça, num primeiro momento, tão importante, na verdade é um traço característico de uma religião que se pretenda viçosa e perene a pirâmide de profitentes com os estamentos superiores, mais aculturados, que ostentam diante de todos a sua convicção na doutrina esposada.

Assim se estabelece aquela magia interessante. Mesmo os que não compreendem integralmente o que tais eruditos alcançam, sabem de sua legitimidade, sua confiabilidade, pelo que sentem-se seguros. Esses são os intermediários. Dotados o suficiente para o crédito de ensinos maiores mas ainda noviços na compreensão mais aprofundada. Fazem um vínculo salutar entre os mais simples e os eruditos. Mantêm todo o sistema equilibrado e em crescimento. No dinamismo do aperfeiçoamento de cada um, segue estamentos acima quem lavra para si maior esclarecimento, por estudo e meditação.

Quando se quebra esse grupo intermediário por ausência dos eruditos e os que ministram os ensinos mais elaborados, a base da pirâmide aumenta e termina desequilibrando o sistema. Há uma hipertrofia. 

Mas não é só.

O avanço de setores técnicos na vida humana trouxe um fenômeno curioso. Mesmo não se tendo aprimorado a oferta de efetiva formação às pessoas em geral, a quantidade de informações vem ficando cada vez maior.

Quando uma coletividade progressivamente maior tem acesso a informação desacompanhada da necessária formação, o nível de pseudoconhecimento aumenta, aumentam as dúvidas, e tudo parece uma autêntica miscelânea em que nada se alinhava a nada.

Então, mesmo dentre os mais simples, já que buscam informações na via facilitada da informatização, dedilhando palavras incompreendidas no “Google”, dúvidas terminam se acumulando. Como as informações facilitadas e abundantes não têm necessariamente o crivo da qualidade, cria-se uma imensa Torre de Babel dos tempos atuais.

Para cada fonte de informações de boa qualidade existente na rede mundial de computadores, receio haver centenas de águas turvas, sem contar os que simplesmente se regozijam por desacreditar, só por jocosidade, tudo o que diga respeito ao Esoterismo.

Não são poucos os sítios eletrônicos que oferecem “serviços” como oráculos. Criaram-se miríades de programas de computador para fazer “consultas” de runas, i-ching, astrologia e coisas que tais, remetendo estudos que deveriam ser sérios a uma parafernália que só faz desacreditar todas as obras que nos trazem os ensinos mais recuados.

Isso faz lembrar. Desde que um Pontífice apontou o Baphomet como a figura do próprio “Diabo”, queimando Jacques de Molay para (tentar) tomar o outro dos Templários, que o pobre bode vem, até hoje, sofrendo bullying como figura demoníaca.

Tanto pior quando a doutrina religiosa se ressente dos efeitos danosos de uma orientação firme de sua cúpula no sentido de priorizar uma simplicidade singelamente tida como virtude para todos, sejam iletrados, sejam eruditos. Isso acontece principalmente nas religiões cristãs hoje em dia.

Deixando de lado a poesia, considerar que a simplicidade deve marcar o ensino para todos, em quaisquer condições, é relegar os buscadores sinceros à renúncia daquela religião e sua doutrina.

No catolicismo em particular, a existência de todo um Sacerdócio estruturado e hierarquizado deveria pressupor a exposição dos Mistérios como nos tempos primevos em que Paulo orientou Timóteo e com ele depositou o dever da tradição.

Não preciso mencionar aqui as conveniências da junção dos interesses de Constantino com um Clero sedento de poder na elaboração do Concílio de Nicéia.

Para quem tenha interesse em conhecer melhor esse importantíssimo aspecto do mundo atual, recomendo uma obra escrita no início do século XX (1902) por Anie Besant: Cristianismo Esotérico.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Reencarnação - compreensão do conceito

Permanecem inúmeras polêmicas acerca da reencarnação em debates travados por aqueles que nela creem e os que a repudiam. Talvez a base dessa divergência, que faz pessoas debruçarem-se sobre textos e textos anotando indícios favoráveis e contras, seja a noção vulgar que se espalhou do fenômeno da palingenia.

Mesmo sem (sequer) tentar esboçar maiores cogitações de cunho místico, nem adotar essa ou aquela corrente espiritualista como "dona" da verdade, é possível ao menos ter em consideração que a reencarnação NÃO significa que a mesma personalidade, a mesma pessoa, o mesmo ego, se manterá em renovadas experiências no plano físico.

Pensemos no homem durante uma única jornada de vida intrafísica. Tomemos, de empréstimo, os ciclos setenários. Uma pessoa aos 7, 14, 21, 28, 35, 42, 49, 56 anos de idade, por exemplo, certamente não pode ser considerada como detentora da mesma personalidade. Acho que ninguém discordará disso. E estamos falando de uma só vida física. O garoto de 14 anos em nada se parecerá, física e emocionalmente, com ele mesmo aos 56 anos de idade.

Temos uma sequência de "reencarnações" (notem as aspas!) no transcorrer de uma mesma vida. Nascemos aptos a absorver ensinos e, com o passar das experiências vividas, vamos edificando nosso arcabouço de traços de personalidade.

Quando o Espírito deixa o plano da matéria pesada por morte do corpo físico, voltando à condição de consciência extrafísica (sua condição originária, diga-se), não será exatamente a mesma pessoa. Conforme suas características individuais, terá maior ou menos expansão de sua consciência, retomando bagagem anterior. Verá a si mesmo, inclusive, com maior clareza --- salvo se tratar-se de consciência submetida a um período, menos ou mais longo conforme o caso, de confusão ou apego a conceitos da vida física que levava, já não mais adequados à sua nova realidade.

Seja como for, demorando mais ou menos, após a morte do corpo físico a consciência terminará agregando em si aprendizados anteriores, experiência anterior, valorações cosmoéticas de maior nitidez.

Já se comparou a sequência de reencarnações a uma roda que gira sem parar até que o ser não mais precise de experimentar vidas físicas. Outros comparam às contas de um grande colar, ligadas por um fio que mantém a bagagem anterior.

De minha parte, acho mais interessante pensar que o Princípio Inteligente adquire sua plena individualização no plano físico. A centelha de vida desce até sua individualização máxima no plano da matéria densa e, depois de conquistar aprendizado suficiente, retoma a ascensão aos planos mais sutis, levando consigo todo o acervo que passará a usar na conquista da expansão de sua consciência.

Tudo isso apenas para dizer que, realmente, de fato, quando textos bíblicos dizem que o homem não nascerá de novo, que o homem tem só uma vida, é verdade.

O homem é a expressão de uma consciência plenamente individualizada e ambientada no plano físico. Cada vida cuida de aprimorar a consciência através da experiência como um homem, aquele homem que vive aquela vida. Esse homem não nascerá de novo, mas sim a consciência que, através dele, verteu para si experiências e aprendizado. 

domingo, 20 de dezembro de 2015

RELEITURA DE UMA ANTIGA PARÁBOLA


Já notou como tantas pessoas têm uma vida calma, sem sustos, em paz?


Seriam almas dotadas de maior pendor espiritual, dignas de tranquilidade em seu dia a dia? 

Creio que dessas há por aí na Vida, ocultas em obras de realização impensáveis para a maioria. No entanto, tomando a atual desventura dessa época em que joio e trigo misturam-se na forja dos tempos chegados, muito mais existem os que embalam-se na monotonia de um viver por viver, sem esforço mas sem espinheiros.

Assim vivem tantos que, recolhidos na aparente paz de um viver inócuo, são poupados pelo Anjo da Dor exatamente para que não precisem exibir sua fraqueza e cair em prantos, de joelho, orando pela ajuda do Criador.

A Sombra bem lhes conhece tal fraqueza, mantendo-os em frígida tranquilidade a fim de não volverem seus olhos para a Luz.

Mas os operosos buscadores que anseiam por elevação! Ah! Os filhos de Caim, herdeiros da terra ao preço do suor, sol a sol, do cultivo árduo por suas vidas! Esses, tanto mais lutam quanto mais a Sombra lhes atormenta a lide diuturna!

Sob o sol que os queima a tez, acostumam-se a fixar a Luz. Desagradam os demônios por manterem a fronte altiva, arrostando com coragem a batalha de ascensão. Bem por isso, são chicoteados minuto a minuto, sob o olhar confiante dos Anjos que lhes doam força interior e convicção.

Se o marasmo agradável de tardes mornas adornam o seu viver, acautele-se!

Se o mar sempre e sempre lhe tenta roubar o leme, afirme-se ao timão e siga adiante!

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Subjetivismo Exacerbado

Há um excessivo apego à subjetividade nos tempos atuais. Isso se manifesta desde a assunção de concepções particulares acerca de tudo, mesmo à ilharga de maiores considerações sobre a autoridade dessa ou daquela opinião, até à tese, algo mirabolante, de que tudo o que existe compõe a percepção intrínseca de cada um. E assim o ser humano progride no exercício de sua liberdade de pensar, exacerbada, vendo-se pessoas deitadas sobre o orgulho ter uma convicção pessoal sobre quaisquer assuntos, até mesmo aqueles amplamente ignorados. Na seara filosófica, e também mística, muitos são os que invocam conceitos mal compreendidos para assentar uma visão simplista de que só existe o que há em minha percepção.

Nesse contexto, coisas como postulados de física quântica são mencionados, em vôo rápido, para dar pretenso fundamento à noção deformada de que só existe a consciência. Ainda outro dia, num filme sem nenhuma pretensão, em cuja cena embalava-se um personagem nitidamente insano, as crianças correndo numa praia estancavam imóveis sempre que ele mudava a atenção para outros pensamentos.

Há quem creia que seja assim mesmo.

Mas, nessa mesma praia, permito-me cogitar, se alguém resolve revolver a areia em busca de conchas poderá encontrar, digamos, um anel. Alguém perdeu o anel que, sob efeito dos remansos, afundou na areia e ali permaneceu. Quem o perdeu nem imagina --- por óbvio! --- onde está; quem o acha, por igual, toca-se de absoluta surpresa.

Um cidadão apressado desembarca em um movimentado aeroporto. Sob reforma, o local se ressente das indicações necessárias para o bom fluxo dos pedestres. O sujeito, com olhos fixos no celular, buscando no Google Maps seu destino, dá com a testa na imensa porta de vidro ainda sem a conveniente faixa amarela que a denunciaria a todos.

Dois exemplos simplórios, porém eficazes, na indicação de que nem tudo o que efetivamente existe e pode conosco interagir deve estar previamente em nossa consciência.

Se alguém coloca veneno no vidro de remédio de incauto paciente, certamente alcançará o efeito mortal mesmo com a absoluta e plena convicção da vítima sobre a eficácia curativa do medicamento.

Leandro Karnal, com sua verve inexcedível em brilhante exposição, menciona que hodiernamente os jovens, quando muito, lêem um ou dois parágrafos de Kant, para logo em seguida anunciar não concordo com isso! Eis aí, também, um aspecto do excessivo subjetivismo que hoje viceja.

A metamorfose ambulante de Raul Seixas impregnou, com sua sedutora filosofia autossuficiente, o pensamento de muitos. A mesma exponenciada rapidez com que tudo é analisado e valorado hoje em dia tem feito com que conceitos complexos do esoterismo sejam aviltados em exposições primárias, simplificando-se ideário abrangente em definições paupérrimas.

Isso já vinha ocorrendo em grande escala com o Espiritismo.

A noção que a maioria tem de causa e efeito no contexto da Doutrina Espírita, com raízes no conceito de karma dos orientais, parece sempre levar a uma tabuada absurda em que ficam tabelados efeitos para os crimes cometidos. Se fulano matou-se com um tiro na cabeça, renascerá com problemas mentais. Se beltrano matava com estocadas no coração, renascerá com problemas cardíacos. E assim por diante. Não são poucos os que pensam assim, pondo o Universo sob um fatalismo essencialmente vingativo, numa relação de crime e castigo em que a consciência --- eis aqui um paradoxo para quem tudo credita à consciência --- nada tem de relevante.


Esse subjetivismo simplista que esculpe noções aberrantes sobre temas complexos vem reduzindo a capacidade de análise a um lanche Macdonald, pego em drive-thru, devorado sem nenhuma – sequer – curiosidade sobre seu conteúdo.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Letter to the Universe - Merry Christmas!

I'm tired of thinking about the gratuity of life. I'm tired because living is a painful journey. Pain is inevitable while the suffering is optional. We can do nothing when life brings us moments of sadness.

We give up the fight? Certainly not...

But we can seek a less strenuous way. Lao Tzu says that knowledge brings to man the notion of their misery. It is not necessary to seek all the answers. We do not have to ask any questions about everything. It is often better to leave aside our curiosity.

The forbidden fruit of the Garden of Eden tree was the tree of knowledge. Precisely because he gave man a sense of himself. The forbidden fruit gave free will to man.

We have to evolve the freedom to the sense of duty. Full freedom is not good for our improvement. Without the sense of duty we can do nothing before everyone else.

OK ... Let it be!

This Christmas I wish you all that life brings much peace and serenity.

Happy 2016!

EsoEstudos - Estudos Esotéricos Livres

domingo, 6 de dezembro de 2015

Panteísmo

Ainda outro dia assisti a um programa de divulgação científica, salvo engano, originário da BBC de Londres, em que cientistas retiraram a base estrutural, de colágeno, de um coração de porco e passaram a aplicar sobre essa estrutura células-tronco humanas.

Independentemente dos vários quilômetros de meandros científicos, o que se tem é que, conforme as células-tronco são aplicadas sobre a estrutura já formada de um determinado órgão, essas células simplesmente respondem com a especialização de células correspondentes a tal estrutura.

Então é assim. As células, de alguma forma, percebem que a estrutura é de um coração (mesmo de outra espécie, mas suficientemente parecido) e passam a formar os tecidos adequados do órgão correspondente.

Essa pesquisa é uma das mais promissoras para que o homem, um dia, possa forjar um coração 100% compatível caso precise de um transplante.

Ora, como assim as células percebem que a estrutura é de um coração e passam a especializar tecidos adequados !!!?

Não se trata de um comando cerebral. Não se cuida de nada além da colocação das células-tronco sobre uma estrutura. Como é que as células sabem, detalhe por detalhe, como devem ser os tecidos que hão de preencher a estrutura de base?

Detalhe: o coração que os cientistas já puderam desenvolver (ainda insuficiente), já atingiu capacidade funcional de cerca de 25% (!!!). Ele pulsa. Sozinho. Basta mantê-lo em condições que simulem sua conexão com um organismo. O documentário exibia o coração num vidro, submerso em um líquido e conectado a tubos. Pulsava.

Muito significativo que esse experimento, apesar de feito sem nenhuma intenção metafísica, põe em cheque a tese do Modelo Organizador Biológico, pelo qual o psicossoma, ou perispírito, seria a matriz para as estruturações físicas.

Uma base de colágeno de porco dá ensejo à formação de tecidos humanos com o uso de células-tronco. De todo modo, como a ciência não dá explicação alguma, é de se arriscar a elaboração de tese ainda metafísica para o fenômeno. Seria o caso de condução extrafísica do experimento? 

Nunca me agradei da informação que compõe a tradição esotérica no sentido de que o psicossoma percebe e funciona por toda sua estrutura, não ostentando células ou órgãos especializados. Já o Espiritismo, notadamente com as obras psicografadas de André Luiz, veio afirmar que, sim, o perispírito tem células, órgãos, sendo o corpo físico um seu reflexo, e não o oposto.

Mas, como interpretar o fenômeno da especialização por células-tronco?

Cada célula do organismo tem em seu núcleo a codificação genética de todo o soma. No caso das células-tronco, além de ter essa codificação, permanece a capacidade de especializar as células que delas se originam. Então, cada célula-tronco é um universo em potencial para a formação de todo um corpo, de todo um organismo, um macrocosmo em que macromoléculas bailam sob uma multiprogramação de tudo abrangente.

Cada vez mais reacende a visão dos antigos sobre o Panteísmo. Os espiritualistas ocidentais abandonaram a visão panteísta reputando absurda a tese de que somos partes do próprio Criador. O Espiritismo nega veementemente o Panteísmo.

Contudo, a forma como apreciam a questão é simplista e totalmente incompleta.

Quando pensamos em coisas como o tema dessa postagem o Panteísmo se apresenta novamente à consideração com um mínimo de profundidade para uma concepção menos superficial.

Afinal, diante dos Espíritos-grupo dos metazoários que habitam esse orbe, nada estranho que essa Humanidade advenha de um Espírito-grupo também.

sábado, 28 de novembro de 2015

Gratidão: a chave da alquimia interior.

A gratidão é um tesouro anímico que ultrapassa, em muito, as conveniências ou etiqueta humanas. Recurso indispensável para a paz, estimulante da boa convivência, a gratidão geralmente não é considerada em si como uma prática de cunho iniciático, uma conduta voltada à conquista de estados mais elevados da alma humana.

Mas é.

Os discípulos de Masaharu Taniguchi bem sabem da importância de agradecer por tudo, o tempo todo, mantendo esse pensamento até que se torne automático diante das coisas da vida.

Max Heindel, como já abordado neste Blog, nos oferece preciosa parábola de Jesus. Estava o Mestre com os apóstolos quando, diante de uma carcaça apodrecida de um cão e vendo a repugnância que vários manifestavam, proclamou em atitude alquímica: nem as pérolas têm o branco de seus dentes.

Eis aí. O Mestre empregou o Bem diante do Mal e, assim, transmutou-o.

Há muito em comum entre essa parábola e o presente tema. É também, e sob fenomenologia semelhante, uma atitude alquímica manter a gratidão diante de tudo na vida.

Deveras.

A gratidão é uma daquelas posturas que --- e nisso há imensa vantagem quando a praticamos --- traz efeitos psíquicos profundos sem exigir grande concentração. Quando, diante de uma provação, verbalizamos algo como "obrigado meu Deus por trazer-me essa oportunidade de ascensão", imediatamente experimentamos um efeito interior de leveza e nos aquietamos. De fato nos ajuda a evitar revolta e ressentimento, venenos óbvios que as adversidades costumam nos inocular.

Vale repetir. A gratidão traz efeitos concretos em nosso psiquismo mesmo que o sujeito não medite profundamente sobre o caso. Desde muito cedo percebemos em decorrência da própria vida que o agradecimento vem acompanhado de algo bom, agradável, algo que nos traz alegria, alívio, enfim, que nos dá paz interior.

Não será necessário aclarar que não estamos falando da postura irônica dos que, sob deboche, agradecem para significar o sentido contrário. Nisso não há, a rigor, agradecimento, senão uso de palavras para o emprego do sentido cínico com que a pessoa reage em determinados momentos.

Falamos do agradecimento puro e simples. Não é preciso levantar análise filosófica sobre o que pretendemos ao agradecer. Basta que manifestemos nossa gratidão como meio de reconhecer que há um propósito superior em todas as situações e circunstâncias que se desenham em nossa vida.

A cada momento da jornada o ser deve agradecer, seja com palavras, seja apenas no recato de seu pensamento, diante de tudo o que se lhe apresente no caminho.

Muitos imaginam que aí não reside senão postura fantasiosa e pueril. Mas é uma das mais importantes chaves alquímicas que se aprofundam em fatores inimagináveis. Por isso mesmo, é uma postura de extrema eficácia. 

Agradeça. Sempre. E seja feliz.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Umbanda - Encruzilhadas e Falanges

Não são poucas as vezes em que a Vida nos convida a optar por caminhos muito diferentes entre si. São as encruzilhadas de que tantos Espíritos nos falam, adotando nomes que expressamente referem-se a essas disjunções de jornada. Não foi outro senão o Caboclo das Sete Encruzilhadas que deu início à Umbanda, uma religião espiritualista que agrega, desde o nascedouro, as camadas mais pobres da população, desde o início do século XX. Por que adotou esse nome? Segundo se diz, em razão de ter sido um padre inquisidor que reencarnara no Brasil como caboclo, tendo absorvido a cultura africana e seu sincretismo com a religião católica no âmbito dos vários cultos desenvolvidos pelos escravos. Ao ser questionado sobre sua identidade houve por bem, no contexto do planejamento de instituir um culto espiritualista para as classes socialmente menos aquinhoadas, adotar uma denominação que ressoaria na alma exatamente daqueles que já se embalavam nos conceitos oriundos dos cultos afro-brasileiros. Expôs-se como alguém a quem não haveria caminhos fechados. Ou seja, alguém que teria vencido as encruzilhadas da Vida. O Caboclo das Sete Encruzilhadas adotou o significativo numeral “Sete”, provavelmente por sua natureza mística, cabalista, tomando-lhe o sentido de completitude.  Ao mesmo tempo, deixou desde logo claro que o irmão de jornada na Terra havia que enfrentar as encruzilhadas da Vida e vencê-las.
Indivíduos com alguma instrução catedrática mal disfarçam o descontentamento com os termos simplórios em geral, buscando reforçar as convicções pessoais sob roupagem mais elaborada, por baixo da toga de uma terminologia rebuscada e, algumas vezes, até exótica. Veem um caráter primário nos nomes adotados pela Umbanda mas não enxergam o exotismo de neologismos que, em certos casos, invocam estranhos construtos de palavras por justaposição ou aglutinação. Isso, sem mencionar que há milênios conceitos são expressos nessa seara, pelo que os termos da Umbanda, tanto quanto de qualquer corrente espiritualista, são igualmente válidos desde que compreendidos em seu concerto doutrinário.
Encruzilhadas... Que ninguém, pois, tenha pudores elitistas com o uso dos termos, tirados do comum dia-a-dia dos mais humildes, na expressão de verdades do Espírito, inúmeras vezes vertidas sob linguajar tão rústico quanto elevado é o conhecimento e estatura do Espírito comunicante. Na Roda da Vida são miríades de Espíritos que retornaram ao vaso carnal em experiências toscas nas roças de escravos, nos híbridos de raças que compõem o próprio brasileiro. Tais Espíritos guardam as mais variadas origens. Alguns foram sacerdotes endividados com o Destino; outros, místicos que agrediram o senso de outrem com interpretações desviantes da inevitável Lei do Retorno. Já foi descrito que Espíritos sob a roupagem de um meigo Preto Velho ocultam túnicas que só os grandes iniciados das Escolas de Mistério podiam envergar. Então, todos os Espíritos que se comunicam nos cultos da Umbanda são seres dotados de elevado conhecimento? Claro que não. Isso não é verdade para nenhuma corrente ou religião espiritualista deste orbe. Mas os que comandam os rumos das imensas equipes de obreiros, amparadores, mensageiros, são, sim, Espíritos cunhados nas lições fundamentais em que ainda nos demoramos.

Aliás, outro termo que causa repúdio a tantos é falange. Na Umbanda não se costuma dizer que há equipes de amparadores, mas sim falanges desta ou daquela Entidade. Resguardo-me de mais comentários. Pouco importa o nome que se dê. Que todas as falanges chefiadas por Caboclos ou Pretos Velhos, ou quem for, realizem o trabalho de Luz que só os mais desavisados da senda espiritual podem ignorar.

sábado, 7 de novembro de 2015

ORIXÁS - CAMPOS VIBRACIONAIS CARACTERÍSTICOS - XANGÔ

Já se falou por aqui acerca dos Orixás: Orixás - Vibracoes - Emanacoes da Divindade

Agora, meditemos sobre as características de cada Orixá. Progressivamente, estudemos juntos cada um deles. Não pretendemos reeditar as miríades de estudos sérios e bem fundamentados que existem à disposição do leitor na internet. Tentaremos, apenas, agregar alguns aspectos.


XANGÔ

Nas mais variadas vertentes dos cultos de origem africana, sejam afro-brasileiros (como o Candomblé), seja na brasileiríssima Umbanda, Xangô é sempre vinculado à JUSTIÇA, tomada essa na acepção mais ampla. Os filhos de Xangô --- ou seja, todos os que sintonizam mais harmonicamente com o padrão vibratório desse Orixá, comungando da Egrégora dos que se afinam com o ideário da retidão, correção, honestidade, firmeza, rigidez --- embalam-se, em sua grande maioria, em atividades correlatas da sociedade humana.

Sempre bom lembrar que na Natureza há homogeneidades desde o micro até o macrocosmo, todas interpenetrando-se, de modo que não há uma tabuada onipotente que fixe o destino ou as atitudes de alguém tão só por ser filho deste ou daquele Orixá. No entanto, é, de fato, muito comum que sejam filhos de Xangô os juízes, advogados, servidores do Judiciário, enfim, a grande maiorida das pessoas que se inserem nas atividades que gravitam em torno da instituição Justiça.

O filho de Xangô sempre pensa no que é certo e errado, não admitindo, em geral, meios termos.

Esse é o aspecto mais vocacionado ao tom humano de Xangô. Mas, enquanto vibração, emanação da Divindade, isto é, enquanto Orixá, Xangô tem seu matiz intrínseco à Natureza em si (padrão Elohim), o que se traduz, no rico simbolismo da Umbanda, muito comumente na acepção de Xangô das Pedras.

Pedra, no sentido de rigidez. Porém não só rigidez: rigidez cristalina. De fato, o cristal é uma pedra de belíssima expressão. Ainda assim não é a beleza que mais importa aqui. Xangô é o reticulado cristalino, a depuração dos arranjos de força em equilíbrio absoluto que determina a formação das mais rígidas e geometricamente bem definidas estruturas da Natureza.


Em cima, como embaixo.

A Alma humana peregrina pela Vida aprendendo a ser reto, honesto, escorreito, com toda a rigidez que tais virtudes exigem. É um minério que se depura na conquista do espaço sob os mais estáveis posicionamentos geométricos de suas partículas essenciais.

Bem por isso as entregas (oferendas) a Xangô serem feitas comumente nas pedras de uma cachoeira. Diz um ponto cantado de Umbanda que Oxóssi é rei das matas, mas quem manda na pedreira é Xangô. Emanações do Criador se harmonizam. Canta-se, também, que mamãe Oxum foi colher lírios na cachoeira.

É preciso interpretar o riquíssimo simbolismo de Umbanda. Não será senão à conta de desconhecimento que adjetivações pejorativas serão lançadas ao belo panteão de Orixás da Umbanda.


Portanto, fica uma sugestão.

Não menospreze o que talvez pareça (sob uma primária, superficial e fragilíssima análise) primitivo. De primário nada tem. Quem tem olhos de ver, que veja. Quem não os tem, que se agarre às bengalas do preconceito.

CAÔ! CAÔ! MEU PAI XANGÔ!!!

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Esoterismo e Religiosidade

Não vamos repetir tudo o que já dissemos sobre o esquema de evolução, as cadeias planetárias, a descida ao plano das formas etc. Tomemos, apenas, a fase final – no caso da nossa onda de vida – da descida ao plano físico. De se lembrar que – conquanto sempre e sempre mal explicado e compreendido – houve alguma coisa excepcional no momento do ingresso desta humanidade no plano denso.

Sim, alguma coisa excepcional. Em grande parte somos fruto de uma “rebelião” que, consoante os mais variados autores, já foi bastante associada ao nome “Lúcifer”. 

Basta considerarmos que o ser humano da Terra adquiriu sua plena individualidade, com consciência contínua, digamos, com alguma precocidade. O que de fato aconteceu, a rigor, ninguém deste planeta sabe. Mas é muito provável que – seja por ação de alienígenas (annunakis etc), seja por ação de seres outros, de planos extrafísicos – o ser humano terrícola foi despertado em sua consciência antes da total maturidade que o estágio antecedente reclamava.

Será? Não sei. Mas acho mesmo muito provável que tenha sido assim.

Certas entidades, que vêm se comunicando desde muito tempo com os homens através de médiuns, canais de comunicação (como, hoje, gostam de mencionar) etc, costumam dizer que o homem é muito precioso no seio da Criação. O homem da Terra é visto com muito carinho e misericórdia, tendo ficado no ideário cristão, por exemplo, o caráter de extrema tolerância de Deus para com seus pupilos tirados do barro.

Novamente, já abordamos isso por aqui.

O que se pretende destacar, agora, é que, simetricamente a essa precocidade na descida ao plano das formas (concomitante, então, com a aquisição precoce da consciência contínua - em decorrência da máxima restrição individualizante), cada evolucionário se vê na contingência de galgar com redobrado esforço o percurso equivalente na retomada da senda ascendente.

O pêndulo descia e, perto do ponto mais baixo, sofreu uma aceleração indevida. Assim, passa pelo ponto inferior com maior velocidade e, inevitavelmente, inicia a subida também com maior velocidade.

Isso tem uma consequência ácida para o ser pensante. É que a capacidade de raciocínio - amplamente estimulada desde o início pelas dificuldades intrínsecas ao meio ambiente - desenvolve-se com ampla desenvoltura. O ser aprende rápido e obtém resultados que lhe trazem vantagens na luta diária. Isso faz o ser ganhar grande gosto por esta faculdade desabrochada com antecedência. O homem passa a pensar, cogitar, analisar e criar meios para sua vida. Vê como as coisas podem lhe ser mais fáceis assim ou daquela forma, nem sempre pondo na devida conta a legitimidade cosmoética das atitudes assumidas.

Literalmente, a humanidade é como uma imensa população de animais pensantes. Animais que, ainda imersos na sanha intensa dos impulsos básicos, navegando nos instintos, tiveram os olhos da razão abertos, pelo que a capacidade de agir conscientemente, no mais das vezes, traz motivações que em primeiríssimo plano visam a satisfação de suas próprias necessidades e, quase no mesmo patamar, de seus prazeres e tendências.

A legitimidade cosmoética da conduta, que - ao menos em tese - viria concomitantemente engendrada no desenvolvimento do ser (caso não tivesse ocorrido o prematuro ingresso no plano das formas), passou a ser um valor futuro a ser conquistado: o senso de dever

Bem por isso Heindel nos fala que o livre-arbítrio será sucedido pelo senso de dever.

Os místicos não têm dúvida em dizer que o homem somente deve aventurar-se pela noção de verdades assim caso estejam no controle de seus instintos, não se permitindo deixar levar por nenhum dos pecados capitais. Situação bem rara. Por isso até hoje esses assuntos são tratados genericamente sob a denominação de Ocultismo, mesmo com o acesso amplo que existe atualmente a qualquer obra, autor ou assunto.

O rigor religioso, com tamanhas ameaças e terrorismo psicológico, não veio à Terra como uma simples deformação da cultura. Na verdade foi estruturado pelos que nos governam a evolução. Melhor estabelecer um sistema de grandes freios e restrições do que deixar a humanidade, livre e solta, ao sabor de seus apetites, alheios ao bem e ao mal.

Claro que um tempo em que inclusive esse sistema de frenagem entraria em colapso era previsível.  Daí a retumbante noção de os tempos são chegados.

E são mesmo. Na atualidade o homem, em sua maioria, não se pela de medo por quase nada transcendente. Não tem medo de Deus nem do Diabo. Neles não crê essencialmente. Como que os tolera. Só deles retoma a noção diante de dores pessoais intensas, ou cataclismos devastadores.

Imagino que não falte razão a quem defenda, na letra religiosa, que se está separando o joio do trigo. Vivemos o autêntico fim dos tempos. O que deu para incutir de cosmoética, foi incutido. Quem pôde apreender e desenvolver dentro de si o senso de dever, assim já o fez. Os que falharam nesse quesito, sofrerão o ranger de dentes.

Não é por outra razão que quase a totalidade dos místicos continuem reiterando ensinamentos cheios de religiosidade. Explicar o porquê disso ou daquilo seria extremamente penoso e de pouca eficácia. Melhor simplesmente reiterar o Deus que nos exige amor e obediência.

Para falar a verdade, concordo com eles.

Creio que haja mesmo quem possa passar ao largo da religiosidade. Mas são muito poucos. Poucos demais. A grande maioria de nós ainda depende - muito! - dos valores religiosos, sob pena de só nos darmos conta de nossos desvios da cosmoética depois de muito comprometimento perante os semelhantes e a Vida.

Deus, tenha misericórdia de nós! São Miguel Arcanjo nos proteja! Que Maria Santíssima interceda por nós!

Não se preocupe. Os destinatários dessas invocações não se importam - nem um pouco - com a designação utilizada. Nós é que - no seio de nossas vaidades - ficamos com toscos melindres e preconceitos.