Aviso

USE O LINK ACIMA PARA CONTATO SOBRE EVENTUAIS ENFRENTAMENTOS DE FASES NEGATIVAS, TROCA DE EXPERIÊNCIAS, BUSCA DE REEQUILÍBRIO.

domingo, 15 de maio de 2016

A RODA DA VIDA

Já tive oportunidade de escrever sobre a simbologia do Tarot, tomando por base a variante mais conhecida, o Tarot de Marselha. O Arcano 10, tradicionalmente chamado “A Roda da Fortuna”, designo-o como “Os Ciclos”. De fato, a natureza se manifesta em ciclos. Tudo são ciclos. As oportunidades surgem e se fecham consoante os ciclos de cada ente envolvido. As conquistas perante o mundo (a tudo o que se dá o devido valor, vem-nos por acréscimo da missão a se cumprir), oportunidades que surgem, boa sorte, mas também frustração, fechamento das oportunidades, perdas. O mais importante é que na Vida, entendida esta como algo muito além de nossa jornada no seio de uma existência física, neste plano material, está sempre e sempre a nos proporcionar as experiências indispensáveis ao nosso aprimoramento espiritual. Simplesmente porque é essa a finalidade da Vida.

Deus, concebido em nossa limitadíssima percepção como a Harmonia Universal, que sustenta o todo existencial no seio de Seu Pensamento, deflagra a grande explosão que espraia de Si o início da Grande Obra. Desde então surge a Natureza, a Divindade Manifesta, e, inapelavelmente, a Roda da Vida começa a girar.

Entre o microcosmo dos ainda insondáveis mistérios quânticos ao macrocosmo dos não menos misteriosos parâmetros relativísticos, o homem se embala numa faixa pequena de vibrações de som, luz e densidade. Vive numa microscópica fresta do espectro em que a Natureza se agiganta. Mas vive sob o mesmo império do Verbo, da Vontade Divina, que aqui faz cristais minerais abrirem gemações como flores, para surpresa de geólogos, muitos descrentes tão só por se acostumarem a vislumbrar ali um “fenômeno natural”.

A Vida amolda manifestações progressivamente mais individualizadas, de simples algas azuis ao desconcertante cérebro humano, como que num caprichoso jogo de ilusionismo para os mecanicistas carentes de melhor explicação à matéria que vive e se aperfeiçoa.

Enfim... A Vida nos impulsiona continuamente para que a centelha divina que nos dota da condição exatamente de vivos, siga adiante em suas infinitas possibilidades de ascensão em todos os setores que, em cada momento, possam ser mais bem lapidados.

Tempestades cortam os céus com raios e chuvas intensas. A dor e eventuais destruições causadas só nos parecem caóticas porque não atentamos para a necessidade de manutenção do ciclo das águas que, dentre tantos aspectos, limpam a atmosfera, lavam superfícies e carregam consigo invisíveis esporos de vida primitiva mas perniciosa aos organismos mais complexos.

O mesmo sol que, sob descuidada busca por tons acobreados à pele causa melanomas, é absorvido pelo fitoplâncton mantendo abastecida a atmosfera com o oxigênio indispensável.

E no contexto essencialmente humano, na conduta, no comportamento, no aprendizado dos valores magnos da Vida, para os quais sequer boas definições temos, a Vida nos embala sob o mesmo e intenso ardor. A pessoa passa pela dor e aprende a evitá-la. Passa pelas perdas e aprende a cultivar carinho e atenção. Passa por todos os medos para desenvolver o senso de confiança transcendente, aprendendo a antever a Harmonia mesmo ainda incompreendida.

Eis aí a chave para compreender o Arcano 10 do Livro de Toth.

Nós passamos por todos os medos que a Vida nos traz para desenvolvermos o senso de confiança transcendente, aprendendo a antever a Harmonia mesmo ainda incompreendida.


"Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas necessidades vos serão dadas por acréscimo". (Mt 6, 24-34)

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita...

Desborda da concepção tradicional desse ensinamento um de seus aspectos, talvez, o mais relevante. O combate aos exageros da vaidade que, quase sempre, levam a um exacerbado personalismo tem raízes bem mais profundas que o aprendizado cosmoético em seu caráter formal.
A Lei da Unidade já foi abordada sobejas vezes nos textos esotéricos das mais variadas correntes espiritualistas, em todos os tempos e culturas. No entanto, tal qual o vislumbre faiscante de uma inspiração, certas verdades simples só vêm à mente como o corolário de uma normalmente longa série de vivências que cada ser ultrapassa na luta de seu dia a dia.
Sim, não basta anunciar uma verdade. Não é suficiente demonstrar essa verdade com bem alicerçados fundamentos. Só mesmo depois que a Vida sucede com sua Alquimia impiedosa, submetendo a Alma ao solve et coagula, essa verdade se desnuda do chumbo fosco para uma áurea percepção tão instantânea quanto o primeiro brilho lançado ao olhar do atônito iniciado.
Bem e Mal são aspectos de uma mesma realidade. Conquanto reais e efetivos cada qual em seus momentos de expressão, guardam na essência a comunhão da origem: a Harmonia Universal.
Não precisamos nos alongar nos meandros filosóficos intermináveis que daí poderíamos facilmente extrair. Seja como for, o ser humano, mal saído da plena animalidade, experimenta, quase sempre sob confusas ideações, sequências mais ou menos longas de consciência lúcida consoante a experiência na Vida assim invoca de sua essência anímica.
A mente insipiente nas maravilhas do intelecto é como uma CRIANÇA que abre uma imensa caixa com miríades de brinquedos, todos diferentes e muito atrativos. Conforme o Uno Impessoal manifesto em cada ser movimenta a centelha em seu crescimento e força, essa criança se apega aqui e acolá, neste ou naquele grupo de brinquedos. Toma de alguns para guarda-los egoisticamente sob um dos braços enquanto, com a outra mão, agita-se na ansiedade de não deixar passar, talvez, algo ainda mais fascinante.
Busca e busca ao mesmo tempo em que brinca com os preferidos. Confunde-se ao atirá-los longe sob o desesperado anseio de ir logo buscá-los de volta. Vez por outra, cansa-se e se apaixona por outros que, afinal, como não pudera ainda ter notado?
A Alma humanizada é uma CRIANÇA ávida por algo que não tem a menor condição de definir.
Mas aprende logo que algumas experiências com as coisas da Vida trazem maior prazer que outras, ao mesmo tempo em que descobre um fenômeno com o qual terá que conviver praticamente todos os dias: a dor. A dor, sem seu sentido mais amplo. A dor de perder algo que muito desejava. A dor de perder por esquecer-se. A dor de perder por ter atirado longe demais. A dor de ter tentado manter algo insustentável por suas forças. Enfim, a dor.
Outra dor lhe é apresentada pela Vida. Descobre-se como alguém que tem mais alguém consigo, igualmente ávido pelas coisas da Vida que deveriam, é claro, ser apenas e tão somente dela. Quem é esse outro alguém que simplesmente vem e vai pegando “suas” coisas?
A Alma humanizada é uma CRIANÇA e, como tal, é muito egoísta.
Bem por isso, a forma de lidar com as coisas varia quase ao infinito. No mesmo passo, o modo de encarar, de conceber, de perceber o mundo à volta baila ao sabor do gosto pessoal. Não é diferente com a noção de certo e errado, de Bem e de Mal.
Que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita...
A realização da Obra passa por toda sorte de idiossincrasias. A Harmonia Universal, no mais saboroso paradoxo dos místicos, manifesta-se exatamente naquilo que costumamos designar como “o caos”. A entropia é uma grandeza da mais ortodoxa ciência. Aliás, observe uma imagem, digamos, de 20m por 20m, com o nariz a um centímetro do centro. A cabeça fixa, apenas com o volver dos olhos, observe essa imagem e tente descrevê-la. Agora pense no que veria se estivesse, por hipótese, a uns 50m dessa mesma imagem.
O caos é a ignorância dos contornos exatos de um sistema. O caos é a percepção limitadíssima de uma ínfima parcela da Harmonia Universal.
Mas existe a Harmonia Universal. Apesar de todas as idiossincrasias e autênticas sandices humanas, tudo e todos estão inseridos em um sistema que leva a tudo e a todos na correnteza da Vida.
Até mesmo as coisas mais aparentemente ignóbeis. Até mesmo as monstruosidades. Até mesmo o Mal.
No transcorrer do desenvolvimento humano, em decorrência do Aprendizado a que deve se submeter pela Vontade do Criador, cada centelha da Vida se agita e vai angariando maior consciência. Porém assim não é senão à conta das experiências, muitas de sabor desagradável, que se sucedem nas (infinitas?) eras, milênios, séculos, décadas, enfim, no concerto do Eterno. O que é agradável à sensibilidade imediata, e esse é um caráter mais ou menos constante da própria vida humana, raramente é edificante dos valores cosmoéticos que o ser, desejando ou não, termina por aquinhoar.
A criança experimenta um alimento saboroso e, desde que não impedida, comê-lo-á até que o organismo não mais suporte. O homem ainda tem muito dessa criança em si. Busca e busca. Seus olhos nunca se cansam de ver, como ecoa Tomás de Kempis com Provérbios 27:20.
A Vida ensina os contornos do bom-senso do único modo capaz de convencer em definitivo a Alma. Não será sob castigo ou ameaças que o homem deixará de fazer ou de omitir-se, mesmo com toneladas de avisos, ensinos, iniciações, cátedras e mais cátedras. Só a experiência, a reiteração, a livre condução diante dos fatos e circunstâncias do mundo é que cada ser humano delineia em si os valores profundos que, sob estertores ou no mais abismal silêncio, passam a compor sua própria essência.
E isso leva tempo. Coisa que o Eterno tem de sobra.
Em meio à sua jornada, o homem nada atavicamente no rio da Vida como um peixe. Num momento a favor da correnteza, noutro contra, mais acima, mais abaixo, com rapidez, lentamente. Mas jamais, nunca, por força alguma, deixará de nadar estritamente no traçado do rio. O rio da Vida lhe garante o livre arbítrio do uso de suas nadadeiras, mas o mantém sob a correnteza e no exato lugar que, minuto a minuto, faça ele por merecer estar no traçado das águas.
O rio da Vida varia em trechos entrecortados, estreitos, largos, fundos, raros, com muitas ou poucas pedras. Em sua viagem, o homem adota a postura que lhe parece a melhor em cada fase. O mais interessante é que faça o que fizer, aja como agir, estará no lugar certo no momento exato. Mesmo quando se põe ao fundo, junto ao leito lodoso, escuro, absorvendo o aprendizado do quão menos dificultosa é a navegação mais alta e sob claridade. Entrelaçam-se infinitas possibilidades e o homem, por um lindo capricho da Vida, por vezes deixa o fundo e, seja por seu mero exemplo ou por efetiva interação, evita que outrem continue em sua pretensão de descida. A Vida muitas vezes é encantadoramente poética.
Não houvesse alguém se precipitado no abismal egoísmo e não seria possível evitar que outros desencantados trilhassem a mesma tragédia. Felizmente não são poucos os que se convencem integralmente pelo exemplo tristemente assistido de quem precipitou-se e protagoniza a agonia do retorno.
Mas o rio da Vida é a manifestação da Criação. Não será por outro motivo que a Natureza mantém peixes e peixes, homens e homens, Almas e Almas. O abismal habitante do nicho profundo das águas turbulentas e escuras é instrumento tão importante e indispensável quanto qualquer outro no concerto da Harmonia Universal.  
Que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita...
Os que escolhem o Caminho da Mão Esquerda, tenham ou não consciência do que sejam diante do Criador, estão sempre e sempre sob a mesma Harmonia Universal que é a Vondade de Deus. Ignoram seguidas vezes o imenso Bem que fazem aos que optam pelo Caminho da Mão Direita. Tampouco esses imaginam o tanto que têm a agradecer a seus irmãos de senda invertida.
Esse texto tem apenas a pretensão de agradecer a TODOS os seres que Deus criou, sem nenhuma exceção. Como cantava Raulzito, o Bem e o Mal num romance astral.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Identidade de Gênero

A questão da, assim chamada, identidade de gênero (ou, consoante terminologia psicológica, Transtorno de Identidade de Gênero) vem sendo objeto de ampla considerações em vários setores da sociedade. Concernente a aspectos personalíssimos, desdobra-se em acalorados debates. As abordagens da ciência ortodoxa têm sido bem abstratas, não se atendo a considerações de cunho ético conquanto, como em tudo o mais, não se possa conceber valorações desse jaez sem o concurso dos elementos valorativos culturais, momento a momento, no concerto da evolução que experimenta o ente coletivo.

A Psicologia afirma que o indivíduo não se restringe ao seu corpo físico, podendo ter de si uma identificação que dele destoa quanto ao gênero. Sem qualquer pretensão quanto ao conteúdo científico dessa asserção, cabe ponderar aspectos que tocam ao comum das pessoas, consoante a experiência do dia-a-dia e seu matiz essencialmente cultural conforme o momento atual.

A identificação que uma pessoa tenha com gênero sexual diferente de seu próprio fenótipo é um fenômeno que, no mínimo, não é o mais comum. Mesmo evitando tecer valorações éticas, impossível deixar de meditar acerca do caráter “normal” ou não de uma identificação assim. Na transexualidade, diz-se, o indivíduo é, por exemplo, uma mulher no corpo de um homem. Imagina-se que seja algo torturante. Se não, ao menos inconveniente em muitos momentos.

Até onde é lícito considerar normal uma identificação psicológica distinta da fisiológica? Claro que ninguém cogita de imputar-se um “demérito” pela existência de tal divergência entre o físico e o anímico. Mas é, de fato, consistente considerar que é perfeitamente normal uma pessoa ter uma estrutura psicológica diferente de sua base fisiológica?

Quando uma pessoa se vê obesa diante do espelho mas, objetivamente, é possível constatar que se trata de alguém até mesmo abaixo do peso, segundo seu índice de massa corpórea, como se denomina isso? Dismorfia Corporal, ou Transtorno Dismórfico Corporal.

O fato do fenômeno ter um nome não conduz a nenhuma solução. Não obstante, deixa claro que é um fenômeno catalogado, sem dúvida, na mesma pasta de outros transtornos psicológicos. No caso da dismorfia corporal, inclusive, a psicoterapia é o tratamento indicado.

Então, temos um transtorno em que o indivíduo tem uma falsa percepção de si mesmo, no mais das vezes, quanto ao peso. Por que essa percepção desvencilhada da realidade objetiva é um transtorno? Creio que a melhor resposta seja: exatamente porque está desvencilhada da realidade objetiva.

No caso do gênero tudo deve ser considerado sob outro talante? Por que? Enfim, busquemos outras comparações até com transtornos menos drásticos.

Raramente no convívio de um grupo, seja na escola ou no trabalho, deixará de ter alguém que esteja sempre em busca de atenção, tendente às dramatizações, sob um afetado clima de forçada intimidade. Quando tais características se tornam constantes na conduta dessa pessoa, diz-se que ela tem Transtorno de Personalidade Histriônica. Ora, aqui a falsa percepção da realidade objetiva é bem menos intensa do que, como já vimos, no caso do Transtorno Dismórfico Corporal. Mesmo assim, por ser uma percepção errônea, constitui igualmente um transtorno de personalidade.

O que se pretende abordar é que a percepção errônea acerca da realidade objetiva é o fator determinante do transtorno da personalidade. Como transtorno, merece abordagem enquanto situação anômala, sem nenhum demérito de ordem moral tampouco qualquer pretensão a uma formulação preconceituosa de menosprezo.

O que não parece correto é, exatamente, tentar dar ares de “odiosa intolerância” à postura de quem considera que um transtorno da personalidade seja algo que reclama tratamento.

A sociedade vem assistindo a um aumento desmedido na construção do conceito de que o sujeito que tem Transtorno de Identidade de Gênero deve ser mantido “à salvo” de quaisquer opiniões sobre o simples fato de ele ter um transtorno da personalidade. 

Tanto menos aceitável é a tese que vem se desenhando em vários setores da sociedade no sentido de que deve ser deixado a uma criança livremente “escolher” se vai ou não assumir a identidade de gênero que lhe advém do próprio corpo físico.

As pessoas que se vitimam por quaisquer transtornos da personalidade não optaram por ser, digamos, histriônicas, paranoicas, dismórficas, tampouco por divergirem do gênero de seu fenótipo. Vale repisar, são pessoas que sofrem de transtorno de personalidade. Não é uma mera questão de “preferir” isso ou aquilo.

Um adulto, senhor de si, que sofra de Transtorno de Identidade de Gênero e não deseje buscar tratamento, que assim delibere sobre sua própria vida. Mas daí não se conclui que uma criança possa ser deixada ao sabor de um transtorno de personalidade como se fosse a mera expressão de sua vontade consciente.

Se uma hipotética criança magra chora e se desespera por se ver ao espelho como excessivamente gorda, não há mínima razoabilidade em interpretar-se que ela está optando por ser gorda. Se a criança demonstra grande carência afetiva, não é possível imaginar-se que ela está livremente optando pelo cultivo de uma exacerbada sensibilidade gótica. 

Uma criança do sexo masculino que demonstre estar na assunção de comportamento feminino, independentemente de quaisquer valorações éticas, deve ser levada à consideração de um profissional habilitado a analisar se é vítima de Transtorno de Identidade de Gênero. E não deve ser outra a atitude desse profissional senão esclarecer os responsáveis pelo tratamento adequado.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

RELIGIOSIDADE e ESOTERISMO

A queda da religiosidade entre os indivíduos ao menos medianamente instruídos tem sido observada em todas as culturas. É cada vez mais comum que a composição dos profitentes dessa ou daquela fé tenha preponderância de pessoas de crítica menos apurada, com menor cabedal de conhecimentos, ainda que não se tenha aqui uma regra absoluta.

Mas não se trata de elitismo. Simplesmente não se aventa da aceitação de preceitos religiosos por quem neles vê alguns ou muitos conceitos que atentem contra seus conhecimentos.

Não por outra razão há quem defenda a necessidade de manutenção do ensino dos Mistérios Menores aos que deles possa conhecer. Os Mistérios Maiores desde sempre ficaram e ficarão restritos a uns poucos.

Paralelamente ao descrédito dos conceitos religiosos apenas superficialmente considerados, cresceu também um autêntico preconceito contra as doutrinas iniciáticas, não importa a origem. Ou são consideradas corporações de pessoas mal intencionadas, ou são tidas à conta de agrupamentos de pervertidos, interessados em cultos satânicos ou sexualmente degenerados. Isso quando não são considerados grupos de incautos, ingênuos, ou esquizofrênicos paranoides.

Algumas correntes menos aprofundadas contribuíram para essa visão distorcida, é bom reconhecer.

Pululam indivíduos desejosos de pertencer a algum tipo de grupo especial, sob rituais que lhe pareçam interessantes, até mesmo por uma indumentária exótica. Há os que se reúnem em florestas com caldeirões de ferro a fim de invocar espíritos da natureza e cozinhar elixires e outras beberagens. Se um dia tal procedimento esteve sob o conhecimento dos Mistérios que envolvem toda e qualquer busca espiritual, certamente não será reproduzindo uma mera e epidérmica encenação que as pessoas alcançarão o conhecimento esotérico que jaz sob determinados rituais bem menos cinematográficos.

Ainda outros pretendem, mesmo, estreitar vivência com a senda esquerda, desejosos de um poder que imaginam ilimitado por concessão de algum demônio serviçal. Grande perigo reside nisso, não por exposição a uma pretensa horda de monstros infernais, mas por sintonia e mútua simbiose com tantos quantos, pensando na mesma frequência, já não estão no plano físico. Tornam-se cegos guiando cegos, obsessores mutuamente imantados, com todos os prejuízos que advêm de tal desatino.

Bem por inconsequentes atitudes como essas, muitos mesmo hoje em dia, ecoando com postura antiga sob fundamento diverso, defendem que não se deve propiciar o estudo dos Mistérios a fim de evitar tais ou quais desatinos, mantendo as pessoas longe de assuntos que as exporiam a consequências ruins. Mas isso significa privar de luz quem tem bons olhos para vê-la. E pior. Como já mencionado, isso faz com que os preceitos religiosos fiquem tão superficiais para os que têm olhos de ver que o descrédito recai sobre a religião em si, tornando-a decadente.

O que dá sustentação a uma doutrina religiosa é a autoridade do conhecimento. A fé, a devoção, o transcendente, sem dúvida, compõem a religiosidade. Mas é a autoridade do conhecimento que faz com que aquela doutrina mantenha a sua finalidade universalista, mantendo sua esfera de atuação em todos os estamentos da sociedade. 

Se para muitos a expressão de ensinos imperativos basta e é o quanto assimilável, para não poucos somente a compreensão externada em aspectos mais ricos é indispensável. Mesmo nos meandros mais profundos, ainda outros tantos mantêm-se firmes em suas convicções por saberem presentes em sua fé aqueles em quem reconhece erudição. Esse último ponto é de extremo relevo. Conquanto não pareça, num primeiro momento, tão importante, na verdade é um traço característico de uma religião que se pretenda viçosa e perene a pirâmide de profitentes com os estamentos superiores, mais aculturados, que ostentam diante de todos a sua convicção na doutrina esposada.

Assim se estabelece aquela magia interessante. Mesmo os que não compreendem integralmente o que tais eruditos alcançam, sabem de sua legitimidade, sua confiabilidade, pelo que sentem-se seguros. Esses são os intermediários. Dotados o suficiente para o crédito de ensinos maiores mas ainda noviços na compreensão mais aprofundada. Fazem um vínculo salutar entre os mais simples e os eruditos. Mantêm todo o sistema equilibrado e em crescimento. No dinamismo do aperfeiçoamento de cada um, segue estamentos acima quem lavra para si maior esclarecimento, por estudo e meditação.

Quando se quebra esse grupo intermediário por ausência dos eruditos e os que ministram os ensinos mais elaborados, a base da pirâmide aumenta e termina desequilibrando o sistema. Há uma hipertrofia. 

Mas não é só.

O avanço de setores técnicos na vida humana trouxe um fenômeno curioso. Mesmo não se tendo aprimorado a oferta de efetiva formação às pessoas em geral, a quantidade de informações vem ficando cada vez maior.

Quando uma coletividade progressivamente maior tem acesso a informação desacompanhada da necessária formação, o nível de pseudoconhecimento aumenta, aumentam as dúvidas, e tudo parece uma autêntica miscelânea em que nada se alinhava a nada.

Então, mesmo dentre os mais simples, já que buscam informações na via facilitada da informatização, dedilhando palavras incompreendidas no “Google”, dúvidas terminam se acumulando. Como as informações facilitadas e abundantes não têm necessariamente o crivo da qualidade, cria-se uma imensa Torre de Babel dos tempos atuais.

Para cada fonte de informações de boa qualidade existente na rede mundial de computadores, receio haver centenas de águas turvas, sem contar os que simplesmente se regozijam por desacreditar, só por jocosidade, tudo o que diga respeito ao Esoterismo.

Não são poucos os sítios eletrônicos que oferecem “serviços” como oráculos. Criaram-se miríades de programas de computador para fazer “consultas” de runas, i-ching, astrologia e coisas que tais, remetendo estudos que deveriam ser sérios a uma parafernália que só faz desacreditar todas as obras que nos trazem os ensinos mais recuados.

Isso faz lembrar. Desde que um Pontífice apontou o Baphomet como a figura do próprio “Diabo”, queimando Jacques de Molay para (tentar) tomar o outro dos Templários, que o pobre bode vem, até hoje, sofrendo bullying como figura demoníaca.

Tanto pior quando a doutrina religiosa se ressente dos efeitos danosos de uma orientação firme de sua cúpula no sentido de priorizar uma simplicidade singelamente tida como virtude para todos, sejam iletrados, sejam eruditos. Isso acontece principalmente nas religiões cristãs hoje em dia.

Deixando de lado a poesia, considerar que a simplicidade deve marcar o ensino para todos, em quaisquer condições, é relegar os buscadores sinceros à renúncia daquela religião e sua doutrina.

No catolicismo em particular, a existência de todo um Sacerdócio estruturado e hierarquizado deveria pressupor a exposição dos Mistérios como nos tempos primevos em que Paulo orientou Timóteo e com ele depositou o dever da tradição.

Não preciso mencionar aqui as conveniências da junção dos interesses de Constantino com um Clero sedento de poder na elaboração do Concílio de Nicéia.

Para quem tenha interesse em conhecer melhor esse importantíssimo aspecto do mundo atual, recomendo uma obra escrita no início do século XX (1902) por Anie Besant: Cristianismo Esotérico.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Reencarnação - compreensão do conceito

Permanecem inúmeras polêmicas acerca da reencarnação em debates travados por aqueles que nela creem e os que a repudiam. Talvez a base dessa divergência, que faz pessoas debruçarem-se sobre textos e textos anotando indícios favoráveis e contras, seja a noção vulgar que se espalhou do fenômeno da palingenia.

Mesmo sem (sequer) tentar esboçar maiores cogitações de cunho místico, nem adotar essa ou aquela corrente espiritualista como "dona" da verdade, é possível ao menos ter em consideração que a reencarnação NÃO significa que a mesma personalidade, a mesma pessoa, o mesmo ego, se manterá em renovadas experiências no plano físico.

Pensemos no homem durante uma única jornada de vida intrafísica. Tomemos, de empréstimo, os ciclos setenários. Uma pessoa aos 7, 14, 21, 28, 35, 42, 49, 56 anos de idade, por exemplo, certamente não pode ser considerada como detentora da mesma personalidade. Acho que ninguém discordará disso. E estamos falando de uma só vida física. O garoto de 14 anos em nada se parecerá, física e emocionalmente, com ele mesmo aos 56 anos de idade.

Temos uma sequência de "reencarnações" (notem as aspas!) no transcorrer de uma mesma vida. Nascemos aptos a absorver ensinos e, com o passar das experiências vividas, vamos edificando nosso arcabouço de traços de personalidade.

Quando o Espírito deixa o plano da matéria pesada por morte do corpo físico, voltando à condição de consciência extrafísica (sua condição originária, diga-se), não será exatamente a mesma pessoa. Conforme suas características individuais, terá maior ou menos expansão de sua consciência, retomando bagagem anterior. Verá a si mesmo, inclusive, com maior clareza --- salvo se tratar-se de consciência submetida a um período, menos ou mais longo conforme o caso, de confusão ou apego a conceitos da vida física que levava, já não mais adequados à sua nova realidade.

Seja como for, demorando mais ou menos, após a morte do corpo físico a consciência terminará agregando em si aprendizados anteriores, experiência anterior, valorações cosmoéticas de maior nitidez.

Já se comparou a sequência de reencarnações a uma roda que gira sem parar até que o ser não mais precise de experimentar vidas físicas. Outros comparam às contas de um grande colar, ligadas por um fio que mantém a bagagem anterior.

De minha parte, acho mais interessante pensar que o Princípio Inteligente adquire sua plena individualização no plano físico. A centelha de vida desce até sua individualização máxima no plano da matéria densa e, depois de conquistar aprendizado suficiente, retoma a ascensão aos planos mais sutis, levando consigo todo o acervo que passará a usar na conquista da expansão de sua consciência.

Tudo isso apenas para dizer que, realmente, de fato, quando textos bíblicos dizem que o homem não nascerá de novo, que o homem tem só uma vida, é verdade.

O homem é a expressão de uma consciência plenamente individualizada e ambientada no plano físico. Cada vida cuida de aprimorar a consciência através da experiência como um homem, aquele homem que vive aquela vida. Esse homem não nascerá de novo, mas sim a consciência que, através dele, verteu para si experiências e aprendizado.