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quinta-feira, 31 de março de 2011

Quem é Lúcifer?

O Mal é apontado na Doutrina Espírita como a ausência do Bem. Em outras filosofias espiritualistas, o Mal é uma das faces da mesma moeda à qual antepõe-se o Bem. Assim, tanto por uma como por outra visão, a dualidade “Bem X Mal” é parte integrante do sistema filosófico adotado.

Ao longo dos séculos que se seguiram ao estabelecimento do Credo de Nicéia, a Igreja instituiu e sedimentou a imagem do Adversário como a personificação do Mal. Lançou-o à consideração de todos como o Diabo, Satã, Mefistófeles, enfim, como um anjo que, tendo sido o mais belo e mais sábio, tomou-se de vaidade e quis ser Deus.

Daí sua designação como “Lúcifer” – o “Portador de Luz”.

Neste mesmo Blog já abordamos algumas vezes a dualidade “Bem X Mal”. Agora, proponho o seguinte aspecto: “Quem” é (ou seria) Lúcifer?

As tradições antigas dos povos, tanto do Ocidente como do Oriente, comungam de uma mesma base mitológica quanto ao surgimento do homem. Variam nomes e aspectos ambientes, mas o mito é sempre mais ou menos o mesmo.

Com uma enorme diferença, todavia.

O Mal não é visto como a ausência do Bem, tampouco como a sua negação ou contraposição. É um aspecto do todo, e, juntamente com o Bem, comungam da essência do próprio Criador Manifesto.

Há um Criador incognoscível, não manifesto, anterior a tudo. Esse Criador não fica no Repouso Absoluto senão até o momento em que, manifestando sua Vontade, faz-se Criador Manifesto através das mônadas que de si emite. Assim da Mônada vêm as mônadas,

Uma longa descrição, em cada cultura dos povos antigos, parte daí até o momento em que deve o homem vir à existência.

Portador de uma mônada individualizada, necessita da matéria para restringir-se à individualização absoluta. Sente-se, assim, separado do todo e passa a reconhecer-se como ser.

Eis aí a sua “revolta”. Eis aí a “rebelião”. O homem sente-se único e identifica-se como um ser à parte. Nesse estrito sentido, “revolta-se” contra o Criador. A noção de si mesmo é o fruto da Árvore do Conhecimento.

Após a plena individualização, de que necessita o homem? Necessita ascender em retorno à Luz Absoluta, na espiral evolutiva que, fechando ciclos, parece retroagir mas continua subindo.

Qual o instrumento necessário para que o homem mude o curso descendente à matéria e retorne, após sua experiência como ser individualizado, à Fonte que o criou?

Esse instrumento é tudo o que o homem aprendeu a chamar de Mal...

É a dor que instrui o ser à manutenção de si mesmo, com os cuidados indispensáveis à própria conservação.

É a perda que obriga o ser à valoração das coisas que lhe vêm ao domínio.

É o medo que impede o ser de lançar-se aos devaneios aventureiros que a vontade traz.

É a humilhação que impele o ser à valoração de si mesmo, extirpando o orgulho que seduz e distorce.

É a violência que nos bate à face cada vez que tentamos burlar nossa consciência com os argumentos personalistas que ofendem nossa natureza espiritual.

E assim por diante...

Lúcifer? É o símbolo do anjo que veio até nós (caiu) para nos ensinar o retorno à Luz...

Não tenha dúvida... Essa história de “Príncipe das Trevas” é apenas para dominar pelo medo. As atrocidades que os homens cometem, cometem-nas por si mesmos, no exercício de sua liberdade de ação que a individualidade propicia.

É preciso acordar para a nossa integral responsabilidade. O Diabo é um pobre coitado que leva a culpa por tudo o que o homem tem vergonha de ter feito.


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