quinta-feira, 30 de abril de 2015

RAZÃO e TRANSCENDÊNCIA

Aspecto bastante interessante sobre a diferença entre a Luz e as Trevas pode ser apreciado com base em informações passadas pelo padre Fortea, exorcista da Espanha. Em poucas tintas, diz o sacerdote que a Razão é inerente à evolução da alma, sem embargo do que é a capacidade de transcender a Razão que demarca os seres vocacionados à iluminação.
De fato, seres trevosos frequentemente ostentam grandes galardões de intelectualidade, com exposição minuciosa de teses assentadas em raciocínios plenos de razão. Contudo – e é a Física que nos oferta os melhores exemplos – não basta a razão para compreender a forma como o Universo se apresenta.
A razão pode levar a alma a grandes elucubrações no âmbito da física newtoniana, verdadeira tabuada em que impera a rigidez aritmética. Mas ninguém se habilita a conhecer, ainda que apenas sob mera divulgação científica, algo da mecânica quântica aplicando o mesmo raciocínio cartesiano. A Física Quântica não se dobra a nenhum padrão de lógica que o ser humano consegue apreender. Tampouco a Relatividade. No macro e no microcosmo as coisas simplesmente não acontecem como “deveriam”, sob o ponto de vista cartesiano.
Ora, foi a transcendência que permitiu a almas como Bohr e toda a escola de Copenhague a identificar os fenômenos muito estranhos da mecânica quântica. Bohr disse que qualquer pessoa que leia sobre a física quântica e não se tome de absoluta confusão e estranheza não terá entendido nada do que leu. Einstein, por sua vez, entendeu o que até hoje tentamos, debalde, compreender.
Isso tudo na seara da Física. Sem a transcendência da razão, não teríamos as conquistas científicas que só funcionam porque a quântica e a relatividade provaram ser como são, estranhíssimas.
Se adentrarmos à esfera da filosofia, teologia, psicologia, antropologia etc, mais clara ainda a necessidade de transcender a razão.
Pois então.
Ocorre que a transcendência implica numa percepção anímica que só ocorre diante de valores que corriqueiramente chamamos de amor, desprendimento, desapego, porquanto são valores que trazem leveza à alma. Leveza, sutileza, elevação.
Os trevosos, não cultivando tais valores, não ganham os tesouros que advêm da humildade. Numa palavra, ao invés da humildade engendram em si o seu oposto, a soberba. Postura densa, pesada, que leva o ser a buscar ocultar suas fragilidades sob um manto de arrogância.

Tal arrogância não permite senão a fria Razão. Sem transcendência. O ser se toma, mais e mais, prisioneiro de um círculo vicioso de autoafirmação, soberba, irritabilidade, intolerância.

sábado, 18 de abril de 2015

ESTÁ TUDO INVERTIDO?

Não parecer estar tudo invertido?
Pense bem. Alguns aspectos sugerem isso.
O Mito Solar é comum a muitas culturas da antiguidade, mesmo a mais remota. Não precisamos deitar detalhes disso novamente. O fato é que Jesus e Hórus, para mencionar apenas dois, são os protagonistas de uma mesma mensagem simbólica de ensinos fundamentais.
É dos tempos muito antigos que o homem é um microcosmo diante do macrocosmo, numa integração plena que engendrou o conceito, hoje bastante distorcido, de panteísmo.
Quando o mundo viu a queda do Império Romano, viu também o surgimento do Feudalismo. A ideia que temos, até hoje, de Idade Média é a típica paisagem com um grande castelo, nobres de espada, servos miseráveis e muita sujeira.
Na passagem de uma a outra Idade, a Igreja surgiu e se firmou. Já falamos disso por aqui.
O que pretendo abordar é que os - assim chamados - "homens de Deus" parecem estar, desde então, realizando o trabalho do "Demônio"; já os "homens do Demônio", parecem estar fazendo o trabalho de "Deus".
Pense bem.
Já se matou infinitamente mais em nome de "Deus" do que em nome do "Demônio". O planeta não tem um só minuto de paz universal desde então. Há inúmeras "guerras santas", diferindo no nome, no tempo e no modo de execução, sempre todas com base na "autoridade" de um preceito "moral" sobre outro.
Fala-se muito da perseguição dos cristãos. Mas pouca gente fala de como os cristãos, após o fortalecimento da Igreja, perseguiram e mataram miríades de pagãos.
Curiosamente, os eventos ditos "sagrados" do cristianismo foram herdados dos cultos pagãos. O próprio Cristo é a transposição do Mito Solar para a cultura hebréia. Há mesmo quem diga que o "Eli, Eli, Lamá Sabctani" corresponderia, não a um "por que me abandonastes?", mas sim a um "como me glorificaste!", de cunho pagão.
Por outro lado, a escolha dos evangelhos canônicos, apenas quatro centre mais de uma centena, ao menos sugere que tenha havido adulteração dos textos.
E se tudo estiver invertido?
Então quem prega a submissão total estará apenas desejando controlar as massas. 
Quem prega o perdão absoluto estará afugentando o senso de reinvindicação e luta pelo direito.
Quem fala da boa vontade estará buscando explorar a força de uma massa prestativa.
Mas... Será?
Seriam os Filhos de Caim os reais iniciadores da senda evolutiva? Lavrando a terra, colhendo os frutos, gerando trabalho e distribuindo riquezas, estariam, mesmo, fazendo algo digno de quem foi "expulso" do Éden?
Não fossem os que lavram a terra, colhem o trigo e fazem o pão, como se alimentariam os que dobram os joelhos e se põem num existir de devoção e oração?
Sim, é belíssima a história de Francisco, mas, se todos doassem tudo o que possuem, não haveria ninguém produzindo nada, forjando nada, edificando nada. O mundo seria um jardim de doações e pedintes. A entropia é óbvia.
Por outro lado, o simbólico "pecado original" de desejar o Conhecimento seria, realmente, um "pecado"?
Alguém concebe o aperfeiçoamento, a evolução, sem o exercício efetivo da capacidade de aprender?
Não é bastante significativo que um dos maiores autores do Ocultismo, Eliphas Levy, foi também um clérigo católico?

domingo, 25 de janeiro de 2015

O Cordeiro de Deus tira o pecado do mundo...

A ideia de que todo o pecado do homem foi assumido e "pago" por Jesus compõe a Teologia cristã e é pedra basilar das duas grandes vertentes religiosas fundadas nos evangelhos canônicos.
Costuma-se dizer que o sangue do Cristo salvou a humanidade. Já fomos salvos.
Por óbvio o espiritualista em geral vê tal ideário com grandes ressalvas.
Não adianta discutir sobre a origem divina, ou não, das escrituras que compõem a bíblia, seja a católica, seja a evangélica. Partamos do princípio de que toda religião se assenta em algum conjunto de ensinamentos, até mesmo as mais antigas, no tempo da tradição meramente oral.
Cada religião tem, pois, sua sustentação em ensinos que, a fim de oferecer um alicerce absoluto, são tidos como divinos e sagrados: absolutos.
De todo modo, sempre causou algum espanto dentre os espiritualistas o conceito de que o Cristo teria salvo a humanidade e que todo o pecado do homem fora literalmente lavado com sangue.
Os ensinamentos atribuídos a Jesus não são, nem na essência tampouco na forma, inéditos. Compõem uma compilação de vários conceitos muito antigos com os quais ele teve contato. Se o homem Jesus foi ou não essênio, ao menos em parte de sua vida, é questão que historiadores e religiosos ainda discutem. Se esteve ele, ou não, no oriente visitando mosteiros budistas, consoante registros encontrados e divulgados timidamente por poucos autores, é outra questão que se acha sob o manto de conveniências e crenças.
Não importa.
O fato é que "tirar o pecado do homem" parece um conceito que deveria ser mais bem interpretado no contexto geral da lei de amor que o Mestre veio trazer.
Mesmo não arrostando diretamente, aqui, o paradoxo do pecado original, inescondível que Jesus veio ao encontro de uma humanidade consciente de si nos limites animais de um ser precocemente aberto em suas percepções, claudicante no exercício de sua liberdade de escolha. Equivale a dizer, Jesus veio ter com espíritos envolvidos nas resultantes de atos e fatos, quase sempre sob consequências desagradáveis. 
Veio para ensinar uma forma de libertação, não propriamente do "pecado", mas desse ciclo de auto causação danosa.
Em meio à vida que o homem cunha para si mesmo não raro abraça entes muito amados que, a fim de melhor suportarem os danos causados a si mesmos, contam com seu amparo tantas vezes apenas como acompanhante em troca aparentemente desequilibrada de experiências.
Uma pessoa recebe, por exemplo, o devedor como filho e o acompanha na jornada, até onde pode, suprindo-lhe o ânimo em preciosa doação de força espiritual. Não será, na maior parte das vezes, por mera nobreza, mas pela necessidade, também existente no pai amoroso, de resgatar a atenção devida aos que, caídos, tiveram talvez o seu descaso pretérito.
Enfim, a Vida é uma jornada em que devedores se encontram com devedores, sendo uns, com passivos menores, titulares de missões para com os que não suportariam sozinhos sequer o enfrentamento inicial.
Bem a propósito este pequeno texto mantém o linguajar típico do esclarecimento religioso das filosofias espiritualistas.
Situando Jesus na realidade cultural de sua época, como poderia ensinar que a Vida vinha sendo um entremeio de reequilíbrio e desacerto sucessivamente renovados?
Como fazer entender que uma nova era deveria iniciar-se, sob novos padrões de comportamento, a fim de quebrar a sucessiva onda de iniquidade até então reinante sob o crivo de plena normalidade diante da orgulhosa face de sacerdotes vaidosos, compra de fé, imposição pela espada, deturpadas oferendas em prol de efeitos benzodiazepínicos ministrados a um pretenso deus perverso e continuamente estressado?
Não adianta falar um idioma desconhecido em praça pública.
A noção de que a Vida cobra seus tributos até o último ceitil mas que a dívida pode ser atenuada com recursos do Amor ao semelhante e mudança de conduta cosmoética só pôde ser expressa, de modo compreensível, sob a tese de que o ensinamento novo tinha que ser aplicado como única forma de salvação e, no que diz respeito aos pecados já consumados, seriam lavados pelo sacrifício, não de todos, mas de um cordeiro muito especial oferecido ao deus neurótico.
Assim se juntou o novo mundo, oferecido pela renovação dos ensinos de Amor, com a religiosidade então vigente, proporcionando ao homem mediano de então uma chance real de entender que a nova conduta poderia levá-lo ao paraíso mesmo se fosse assumida somente dali por diante.
Lembremo-nos que era vigente a lei do talião. Ninguém achava estranho nem minimamente exagerado, por exemplo, apedrejar uma prostituta. Até hoje fazem isso em alguns círculos humanos que conservam sua cultura primitiva.
Para que a Lei do Amor pudesse ter alguma chance de ser aceita, era necessário uma cena dantesca de sacrifício.
Um símbolo da oferenda ao deus psicótico em que a imensa maioria cria há séculos.
Jesus tirou o pecado do mundo no sentido de ensinar, por reforço e vivência dos ensinos antigos semeados em todo o planeta há muitos milênios (ensinos esses até então ignorados ou mantidos em altas cortes nas escolas de mistério) que a não violência é a solução para a violência, que o amor é a solução para o ódio, que a tolerância é a solução para a aceitação do erro alheio, que o perdão é a solução para o sentimento de vingança, e assim por diante.
Nesse contexto, voltando aos que sustentam o semelhante na vivência de seu resgate cármico, o ensinamento de Jesus também se faz ouvir.
Muito do que ocorre na presente jornada física tem causa em ceitis passados. 
Não há pecado sendo pago. Há efeitos de atos e fatos pretéritos.
Jesus tirou o pecado do mundo ao relembrar, por ensinamentos e exemplo de vida, que o Amor é a única via de ascensão espiritual, tanto quanto os efeitos dolorosos de erros pretéritos podem ser atenuados desde que sob sincero arrependimento e modificação da conduta.
A responsabilidade do homem após a divulgação dos ensinos fundamentais da Lei do Amor em muito aumentou. Sob essa ótica, não nos iludamos, o pecado do mundo pode ter, sim, aumentado muito consoante sejam tantos ou quantos os que adotaram a Boa Nova.

domingo, 21 de dezembro de 2014

NATAL-2014


Mais uma vez o Natal se aproxima. Hoje é solstício de verão e o Astro se põe bem alto no céu. Incontáveis culturas humanas do Mundo Antigo festejavam o Rei de Luz que se erguia lá, bem acima, de onde tudo podia ver e iluminar.

Segundo parte da Tradição, cada astro físico do Universo é o corpo físico de um Ser cuja elevação não permite âncora menor, a fim de bem suportar pela curvatura do espaço as miríades de interpenetrações dentre espectros, planos, dimensões, enfim, no vários Universos do qual o físico é pálido sustentáculo estrutural.

Nosso orbe permeia-se com a contraparte astral de um Ser que, dentre tantos nomes, é também chamado Gaia.

Respiramos na atmosfera espiritual desse Ser que nos conduz pela ressonância irresistível de sua Mente. Mas o Astro Rei de nosso Sistema, que também é o corpo "carnal" de um Ser de ainda mais inimaginável evolução, determina com Sua Mente que as fagulhas humanas conquistem seu próprio brilho...

Daí a epigênese que construímos com o livre arbítrio que nos cabe, aquela parte do destino que podemos mudar, não muito grande mas, nem por isso, de importância menor que a própria Luz que nos habita e mantém vivos.

Em 25 de dezembro comemoramos a interação do Deus-Sol, o mesmo a que tantos clamam como se não estivesse na essência de cada um de nós.

Jesus-Mitra-Krischa-Hórus (e tantos outros nomes mais) é o fruto da redução extrema, em dor, sofrimento e desapego, que o nosso Cristo Planetário nos doou e doa, descendo à forma humana para nos soar as Verdades Eternas.

Que cada gota do sangue do Mestre não lhe escape à lembrança quando as gotas de lágrimas insistirem em turvar-lhe a visão.

FELIZ NATAL!!!

Marco Aurélio Leite da Silva

EsoEstudos - Estudos Esotéricos Livres

domingo, 23 de novembro de 2014

FILHOS... Tesouros valiosos e, às vezes, tormentosos...

Não vou falar de aspectos intrínsecos ao grupo-carma que cada família compõe no seio da Vida. Não... Vou falar de aspectos bem práticos que, mais comumente do que possamos imaginar, ocorrem na maioria dos lares.

Recebemos missões árduas porém muito edificantes --- a educação de nossos filhos. Desde bem pequenos tocam-nos o rosto, doam-nos sorrisos, as primeiras palavras, o abraço apertado em torno do pescoço...

Crescem e, absorvendo o que a escola e o lar ensinam, vão passo a passo galgando a descoberta das belezas e das agruras da Vida.

É um belo quadro, uma linda síntese, verdadeira para vários deles.

No entanto, o Pai bem cuida de nos enviar, em todos os lares, um ou outro que traz a rebeldia da ilusória e indefensável ideia de que já sabem tudo o que precisam para viver como quiserem. Isso costuma acontecer na adolescência. Para quem tem vários filhos é curioso ver como alguns são tomados de assalto pelas dúvidas da Vida sem, no entanto, permitir que o veneno lhes adocique o impulso precoce de autonomia insustentável... Já outros... Sem nada terem de concreto nas mãos, simplesmente recusam-se a trilhar os caminhos ensinados. Seja como um sorriso e belas frases, seja com gritos e ofensas, uns ou outros, revoltados, simplesmente não aceitam que a Vida ainda não lhes é plenamente conhecida, atirando ao monturo, com uma sobrancelha soerguida em profunda repulsa, toda e qualquer orientação que os pais tentam --- até desesperadamente --- lhes transmitir.

A agitação da serpente que deveria impulsionar a busca saudável pela identidade individual torna-se um arrebatamento exótico de atitudes ciclotímicas, um misto de hipomania e depressão que, no linguajar atual e mais ameno do mundo Psiquiátrico, é visto como transtorno bipolar, aquilo mesmo que era, até alguns anos passados, chamado de neurose obsessivo-compulsiva.

O exotismo dessa embriaguez por autonomia antecipada traduz-se em posturas que podem transformar o adolescente numa tela de rascunhos de tatuagem, rombos na cartilagem das orelhas, orifícios na parte interna dos lábios, ou externa, no nariz... Cabelos raspados de um lado e muito longos de outro, sob coloridos horrendos que lembram uma aquarela manchada.

Houve um tempo em que as "tribos" (como então se dizia) podiam ser identificadas por um "estilo" mais ou menos comum. Hoje em dia estabeleceu-se um ecumenismo onipresente do exotismo pelo exotismo... 

Mas, o que mais preocupa... A sexualidade...

O mundo de hoje é um misto de defensores radicais de todas as formas de opção sexual a fundamentalistas extremos que desejam puramente eliminar tudo o que não esteja no gabarito heterossexual.

Apenas de olhar, num desses "points" noturnos (na chamada "night" --- até os termos são mais pobres) simplesmente não dá para saber quem é o que... O mais irônico é que ontem (22/11/2014) li uma notícia de que há uma vertente adotando um estilo "lenhador", com barbas longas e mal aparadas, boné, camisa xadrez e cara de "machão".

O que virá adiante?

Seja o que for, uma parte dos adolescentes do AQUI e AGORA mantêm-se longe de tudo isso, lutando o bom combate, estudando e se preparando para uma boa faculdade... Sacrificando horas e horas de finais de semana (além, é claro, da semana útil, geralmente durante a noite --- durante o dia fazem estágio e estudam nos cursos preparatórios) --- em prol de uma formação que lhes dê, aí sim, a tão sonhada autonomia e independência.

Vejo jovens, já na faculdade, passando o dia todo à base de lanchinhos, coxinhas, porque estagiam durante toda a tarde e estudam de manhã ou à noite.

Mas vejo também jovens que se masturbam incessantemente com o glamour de serem, um dia, quem sabe, descobertos --- sabe-se lá por quem --- para o delírio do Universo que, assim, terá a oportunidade de vislumbrar-lhes o folheado áurico de que se revestem seus retos.

Voltando um pouquinho ao Espiritualismo, diria que, bem, vá lá, façamos nossa parte e deixemos que o deslumbrado (alucinado) aprenda consigo mesmo do jeito mais árduo. E, ademais, se ele for mesmo o protagonista de uma dessas maluquices divinas, que seja descoberto e se torne um grande... grande... seja lá o que for...

De minha parte, prefiro ajudar com tudo o que eu puder os que, como eu e miríades de outros, preferiram LUTAR o bom combate.

Como disse Constantine, Ele age de modo estranho... Há os que gostam e há os que não gostam...




domingo, 25 de maio de 2014

LIVRO DOS ESPÍRITOS --- COMENTÁRIOS LIVRES

Capítulo 1 – Deus

Deus e o infinito – Provas da existência de Deus – Atributos da Divindade – Panteísmo

Deus e o infinito

1 O que é Deus?
– Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.
Cogitar da natureza da Divindade não costuma levar a nenhuma conclusão segura. Os fundamentos das várias correntes filosóficas, com ou sem cunho esotérico, simplesmente não podem responder à questão “O que é Deus?”. Merece ser considerado, no entanto, que é da própria Física que um sistema, desde que entregue a si próprio, progride para a entropia. Isso significa que tende ao caos, se desorganiza, perde a ordenação dinâmica dos fenômenos que o caracterizam. Ora, o Universo é um inimaginável sistema dinâmico em que galáxias se equilibram sobre eixos gravitacionais num bailado que o homem ainda está muito longe de bem compreender. Isso não faz prova da existência de Deus, tampouco nos aclara sua essência; ainda assim, permite-nos vislumbrar que há uma ordenação universal que abrange desde os reticulados cristalinos, na intimidade dos sólidos em sua expressão microcósmica, até a dança macrocósmica das galáxias e – por que não especular? – dos universos ainda desconhecidos. Nesse contexto, repisando a resposta dada pelos Espíritos, podemos inferir que Deus é a causa inteligente cujo efeito é o todo universal.
Daí dizer-se que é “causa primária de todas as coisas”. Muitos passam à ilharga de maiores considerações acerca desse postulado. Deus é a causa primária, ou seja, é a causa primordial, o moto originário do qual tudo o mais decorre. Somente com a integração da essência divina no todo universal podemos compreender que haja um Deus presidindo todas as relações de causa e efeito, numa concepção que, sem dúvida, transcende à noção de passado, presente e futuro. A atemporalidade de Deus é indissociável da concepção de que é ele a causa primordial de tudo, sob pena de passar a ser um mero iniciador, um starter, cuja onipotência não se sustentaria senão como a tacada inicial num jogo de bilhar.
Corrobora tal concepção a assertiva, corriqueira em todos os colégios de estudos teológicos eso ou exotéricos, de que Deus é a causa inteligente de tudo. A ordenação do todo universal, enraizando no microcosmo e espargindo sua pompa e circunstância no concerto das galáxias, só pode mesmo ser tido como um processo inteligente, de cunho finalístico e que bem se projeta na idéia de propósito. Caso contrários, teríamos infinitos efeitos coordenados desdobrando-se na eternidade do agora apenas e tão-somente porque o universo não se arranjou casualmente de outro modo. É como alguns pensam, de fato. Mas não parece uma postura convincente legar à conta do mero acaso que tudo se ajuste no intrincado jogo de ser e vir-a-ser que desenha a vida desde os minerais até os conglomerados galácticos que o homem mal começa a conhecer.
2 O que devemos entender por infinito?
– O que não tem começo nem fim; o desconhecido; tudo o que é desconhecido é infinito.
A resposta é evidente ao eleger o desconhecido como uma boa concepção de infinito. Com isso os Espíritos não afirmaram que não existem limites ao universo, mas tão somente que ao homem tais limites são desconhecidos, o que faz do universo, para o homem, algo infinito. Pensar que o universo é algo sem quaisquer limites ofende a razão, de modo que a cláusula explicativa “desconhecido” vem bem repor no bom senso o conceito de que o universo, por não ser passível de apreciação pelo homem em seus limites, é para ele infinito.
3 Poderíamos dizer que Deus é infinito?
– Definição incompleta. Pobreza da linguagem dos homens, que é insuficiente para definir as coisas que estão acima de sua inteligência.
Apesar do rigor com que os Espíritos responderam a essa pergunta, creio que por força da resposta imediatamente anterior, podemos ver que considerar Deus infinito, desde que sob a ótica de que infinito é o que nos escapa à capacidade de conhecimento, não é um conceito errado. Tanto assim que foi afirmado tratar-se de uma “definição incompleta”. De fato. Mas tudo sobre o que exista desconhecimento pode ser tido como infinito. Não se tire daí a idéia equivocada de isento de limites. Infinito é tudo o que é infindo, não completamente conhecido, não plenamente assimilado. Deus não é infinito porque não tenha os limites de sua própria condição de divindade, mas sim porque não compreendemos quais possam ser as limitações da condição de divindade.

Provas da existência de Deus

4 Onde podemos encontrar a prova da existência de Deus?
– Num axioma que aplicais às vossas ciências: não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem, e a vossa razão vos responderá.
A ordenação universal, desde os fenômenos aparentemente mirabolantes da mecânica quântica, até o bailado relativístico de curvaturas espaciais, passando pela beleza indissociável das gemações cristalinas no seio granítico, traz ao senso comum do homem a noção de que há algo mais, muito além do que ele pode compreender. O fenômeno “vida” se desnuda à vista dos cientistas como uma imensa seqüência de programação bioquímica que se desdobra à guisa de um software engendrado no próprio hardware. Conexões ocorrem ou não e, assim, determinam outros encontros ou desencontros que ao fim de uma astronômica seqüência causam um efeito necessário para a vida do organismo. Certamente não é o cérebro humano que está coordenando cada reposição das células epiteliais, tampouco a agitação miogênica que faz um coração pulsar, por algum tempo, até mesmo fora do corpo. Uma gemação geológica distribui partículas matematicamente dispostas sob engenharia imaculada, sem cérebro algum coordenando.
Nada disso prova a existência de Deus. Mas nos faz pensar: se não for Deus, ainda assim, dê-se o nome ou conceito que se deseje dar, com certeza há “algo” por trás da ordenação universal. Se não nos importarmos com gostos pessoais ou questiúnculas pseudo-filosóficas de mero preconceito religioso, podemos, sim, considerar que a ordenação universal não só é uma prova, mas é a própria presença de Deus.
5 Que conclusão podemos tirar do sentimento intuitivo que todos os homens trazem em si mesmos da existência de Deus?
– A de que Deus existe; de onde lhes viria esse sentimento se repousasse sobre o nada? É ainda uma conseqüência do princípio de que não há efeito sem causa.
A intuição é ainda vista como uma quimera por muitos que se aboletam em cúspides catedráticas. No entanto, a intuição já é vista, também, como um raciocínio sob síntese perfeita. Enquanto a razão se preocupa em esmiuçar cada fase do raciocínio, passo a passo, até a conclusão final, um troféu de bom senso isento de sofismas, a intuição faz a percepção percorrer todo o caminho por uma via menos formal porém igualmente acertada. É como um código de programação de computadores. Um programador menos experiente necessita ensinar o computador a fazer, passo a passo, tudo o que ele, programador, entende deva ser feito para que o resultado daquela seqüência de comandos seja o esperado. Já um programador mais experiente, lançará a longa seqüência de comandos no seio de uma função sintética que, não precisando escrever todas as passagens algébricas (Boole), simplesmente leva ao resultado por uma formulação enxuta e baseada no fornecimento apenas das variáveis necessárias. Quando o homem tem intuições verdadeiras, e não meros achismos oriundos de sua vontade, ele recebe o resultado de uma longa seqüência de conjecturas, experimentando o resultado com absolutos foros de verdade. Por isso muitos sábios e homens de gênio não sentem necessidade alguma de discutir os porquês de crerem em Deus, não se importando nem um pouco quando colegas de mesma envergadura científica riem de suas convicções.
6 O sentimento íntimo que temos em nós da existência de Deus não seria o efeito da educação e das idéias adquiridas?
– Se fosse assim, por que vossos selvagens teriam também esse sentimento?
O Deus de um selvagem de cultura primitiva pode, de fato, ser tido como “diferente” do Deus de um doutor em ciências? Claro que sim. Assim como o Deus de um doutor em ciências de formação cristã muito provavelmente não será o mesmo de um colega cientista de formação indiana, ou muçulmana. Na verdade, o Deus que habita a alma de cada um de nós, até mesmo aquele negado pelos ateus, é o Deus muito próprio de cada ser humano. Deus é uma concepção humana que serve para inculcar nas pessoas o conceito de ordenação universal, de princípio universal inteligente, de causa inteligente atemporal e que faz tudo ser o que é independentemente de nossa noção de passado, presente e futuro. Não faz diferença se o Deus (ou Deuses) dos astecas pedia sacrifícios humanos, tanto quanto não importa se o Deus dos católicos serviu para as barbáries da inquisição. O sentimento íntimo da existência de Deus é a intuição de que há uma ordenação universal.
7 Poderemos encontrar a causa primária da formação das coisas nas propriedades íntimas da matéria?
– Mas, então, qual teria sido a causa dessas propriedades? Sempre é preciso uma causa primária.
Leis de atração e repulsão constroem reticulados cristalinos no seio da imensa, conquanto microscópica, arquitetura estrutural da matéria sólida. Considerar que a ordenação universal é a causa da própria ordenação não constitui senão falta de lógica.
8 O que pensar da opinião que atribui a formação primária a uma combinação acidental e imprevista da matéria, ou seja, ao acaso?
– Outro absurdo! Que homem de bom senso pode conceber o acaso como um ser inteligente? E, além de tudo, o que é o acaso? Nada.
Kardec ficou variando sobre um mesmo tema com perguntas insistentes, certamente por considerar necessário aclarar que efetivamente há uma causa inteligente para a ordenação universal.
9 Onde é que se vê na causa primária a manifestação de uma inteligência suprema e superior a todas as inteligências?
– Tendes um provérbio que diz: “Pela obra reconhece-se o autor.” Pois bem: olhai a obra e procurai o autor. É o orgulho que causa a incredulidade. O homem orgulhoso não admite nada acima dele; é por isso que se julga um espírito forte. Pobre ser, que um sopro de Deus pode abater!
Errôneo pensar em Causa Primária ou Causa Primordial como algo restrito a um passado distante e que deflagrou toda uma seqüência de conseqüências arquitetadas. A causa primordial é atuante em tempo contínuo, o que equivale a dizer que é atemporal. Não há passado, presente e futuro para a ordenação inteligente do universo. A ordenação, em si, é o existir do próprio universo, o que se compreende pela constatação de que, ausente tal ordenação, deixaria de ser um sistema auto-sustentável e se dissolveria por entropia.

Atributos da Divindade

10 O homem pode compreender a natureza íntima de Deus?
– Não, falta-lhe, para isso, um sentido.
Muito curiosa essa resposta dos Espíritos. Falta ao homem um sentido para compreender a natureza íntima de Deus.  O caráter progressivo dos ensinos foi metodicamente estabelecido por Kardec na compilação da doutrina, de modo que não é possível adiantar-se conceitos que demandam a apreciação de outras definições. Ainda assim, merece destaque o homem é um espírito encarnado, ou seja, é um espírito submetido estritamente nos limites do plano existencial conhecido tradicionalmente como “matéria densa” (expressão discutível, mas consagrada). Estar nos limites da matéria importa numa imensa restrição das percepções em seu sentido mais amplo, tudo isso em favor da necessária limitação do espírito como ser independente, inserido numa personalidade, sem lembranças do passado e sem noção do futuro que lhe aguarda (a ordenação universal é atemporal). O sentido que falta ao homem para conceber a natureza da divindade advém de sua restrição a um foco de consciência conhecedor de si mesmo. Numa comparação bastante simplória, a restrição consciente do homem é como a de um computador não linkado a nenhuma rede. Já um computador inserido numa rede, conquanto tendo sua própria CPU, cede e recebe constantemente informações, interage full time com o ente coletivo. Daí porque o termo religião ser tão comemorativamente relembrado com o sentido de “religação” com a divindade. Não se está afirmando que o homem encarnado esteja apartado do todo universal de forma absoluta, o que seria impossível; mas a consciência sob os limites da matéria e mesmo após a dessoma permanece em nível de total prevalência centrípeta.
11 Um dia será permitido ao homem compreender o mistério da Divindade?
– Quando seu Espírito não estiver mais obscurecido pela matéria e, pela sua perfeição, estiver mais próximo de Deus, então o verá e o compreenderá.
Essa resposta bem complementa a anterior. Encarnado ou desencarnado, o homem somente passa a compreender melhor sua situação diante do Cosmo conforme diminui o caráter centrípeta de suas cogitações mentais. Por isso as doutrinas, notadamente mais ao leste, muito falam de eliminação do egoísmo. O ego é apresentado frequentemente como se fosse um “ser à parte” da natureza intrínseca da alma, conceito um tanto exagerado apesar de muitas vezes adequado desde que tomado sob contornos simbólicos.
12 Se não podemos compreender a natureza íntima de Deus, podemos ter idéia de algumas de suas perfeições?
– Sim, de algumas. O homem as compreende melhor à medida que se eleva acima da matéria. Ele as pressente pelo pensamento.
Novamente os Espíritos aclaram que a concepção que se faça do ordenamento inteligente do universo somente se ampliará conforme o homem deixar de ser uma plena individualidade e passar a uma maior comunhão com o todo, sob o império da sintonia tanto do tom fundamental de seus pensamentos como dos harmônicos de suas tendências.
13 Quando dizemos que Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, não temos uma idéia completa de seus atributos?
– Do vosso ponto de vista, sim, porque acreditais abranger tudo. Mas ficai sabendo bem que há coisas acima da inteligência do homem mais inteligente e que a vossa linguagem, limitada às vossas idéias e sensações, não tem condições de explicar. A razão vos diz, de fato, que Deus deve ter essas perfeições em grau supremo, porque se tivesse uma só de menos, ou que não fosse de um grau infinito, não seria superior a tudo e, por conseguinte, não seria Deus. Por estar acima de todas as coisas, Ele não pode estar sujeito a qualquer instabilidade e não pode ter nenhuma das imperfeições que a imaginação possa conceber.
Não tem sentido prático algum elencar atributos da divindade. A ordenação inteligente do universo está além da descrição de pretensas prerrogativas de poder ou glória. O homem ainda se prende, por demais, ao senso de religiosidade que exige alguma forma de louvor elogioso, sob pena de parecer “desrespeitoso”.

Panteísmo

14 Deus é um ser distinto, ou seria, segundo a opinião de alguns, resultante de todas as forças e de todas as inteligências do universo reunidas?
– Se fosse assim, Deus não existiria, porque seria o efeito e não a causa; Ele não pode ser ao mesmo tempo uma e outra coisa.
Deus existe, não podeis duvidar disso, é o essencial. Crede em mim, não deveis ir além, não vos percais num labirinto de onde não podereis sair, isso não vos tornaria melhores, mas talvez um pouco mais orgulhosos, porque acreditaríeis saber e na realidade não saberíeis nada. Deixai de lado todos esses sistemas; tendes muitas coisas que vos tocam mais diretamente, a começar por vós mesmos. Estudai vossas próprias imperfeições a fim de vos desembaraçar delas, isso vos será mais útil do que querer penetrar no que é impenetrável.
Quando o tema adentrou à noção de panteísmo, os Espíritos parecem ter, de fato, perdido a paciência. O trabalho desenvolvido por Kardec sob a orientação dos Espíritos não pretendia aclarar obscuridades intrínsecas às escolas de pensamento esotérico existentes desde a mais remota antiguidade. Tanto mais diante da diferente ótica que as doutrinas esotéricas ocidentais dão a informações oriundas, na verdade, de uma mesma fonte difusa que espargiu registros nos mais distantes e diferentes povos do planeta.
O panteísmo, enquanto noção fundamental, foi aviltado por uma simplificação encomendada: o homem não podendo ser Deus, deseja ao menos ser parte dele. Assim se repete em outros pontos de O Livro dos Espíritos, vendo-se uma autêntica perda de paciência com a curiosidade demonstrada pelo lionês questionador. Recomendações como deixai de lado todos esses sistemas; tendes muitas coisas que vos tocam diretamente, a começar por vós mesmos, não desbordam de um “cala a boca e ouça, que temos coisas mais importantes para lhe dizer”, ou “não estamos aqui para matar a vossa curiosidade”.
Mas a ideia de panteísmo não guarda relação com um mero desejo vaidoso de igualar a divindade. Pelo menos não o conceito panteísta que toca a praticamente todos os ensinos das antigas Escolas de Mistérios, desde o mais remoto ensino egípcio. A repulsa ao panteísmo, da forma como colocada, mais parece uma ameaça do credo niceno por sacerdotes temerosos de perder o pretenso mandato outorgado pelo único Deus.
Quando os Espíritos dizem que falta ao homem um sentido para compreender a essência da divindade, como já visto, muito querem dizer, com poucas palavras, da limitação causada pela individuação máxima do foco de consciência no plano das formas. Mas não estavam dispostos a elucidar questões filosóficas que, no entender do colegiado que transmitiu a doutrina espírita, poderiam ficar para mais tarde.
Tenhamos em mente apenas que o panteísmo não é o simples desejo vaidoso de ser Deus. A noção de panteísmo tem muito mais a ver com a comunhão da consciência do homem com a fonte originária de todo fenômeno: Deus.
15 O que pensar da opinião de que todos os corpos da natureza, todos os seres, todos os globos do universo, seriam parte da Divindade e constituiriam, pelo seu conjunto, a própria Divindade, ou seja, o que pensar da doutrina panteísta?
– O homem, não podendo se fazer Deus, quer pelo menos ser uma parte d’Ele.
Eis aí a reprimenda. Hoje em dia parece até um pouco jocosa. Mais engraçado, no entanto, é tentar imaginar que a ordenação universal, manifesta de forma atemporal e a tudo abrangendo, possa ser essencialmente destacada da divindade. Ubaldi bem alertou que não há sentido em separar o criador da criação. É mais ou menos como pretender que o processo respiratório é um ser à parte da interação de todos os órgãos da respiração, com sua ordenação sincrônica e constante.
16 Aqueles que acreditam nessa doutrina pretendem nela encontrar a demonstração de alguns atributos de Deus. Sendo os mundos infinitos, Deus é, por isso mesmo, infinito; não havendo o vazio ou o nada em nenhuma parte, Deus está, portanto, em toda parte; Deus, estando por toda parte, uma vez que tudo é parte integrante de Deus, dá a todos os fenômenos da natureza uma razão de ser inteligente. O que se pode opor a esse raciocínio?
– A razão. Refleti maduramente e não vos será difícil reconhecer o absurdo disso.

Bem evidente a intenção dos Espíritos em mudar de assunto. Sem críticas. Apenas devemos estar conscientes de que os esclarecimentos cabíveis em meados do século XIX para a massificação das coisas do espírito não coincidem com a demanda por tais informações século e meio depois.



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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Meu pai retornou ao plano espiritual

No dia 19 de fevereiro de 2014, por volta da meia noite, meu pai, Gerson Barbosa da Silva, retornou ao plano espiritual. Sua partida se deu após paradas cardíacas resultantes de hemorragia gástrica. Tinha 85 anos.

Costumava chamá-lo de gran fascio ("grã facho"). Era um homem de inúmeros talentos. Músico (dos bons!), esmerilhava o clarinete entre fusas e semifusas. Desenhava, pintava, esculpia... Criava o tempo todo. Dono de uma imensa capacidade de aprender, tudo aprendeu sozinho. Por 32 anos esteve numa farda do exército, como sargento, orgulhoso de seu brevê de paraquedista.

Meu pai ensinou-me muitas coisas... Na verdade, muito mais do que qualquer um possa imaginar. Nem mesmo o mais próximo parente sequer pode imaginar como era a essência de minha relação com ele. Ninguém, ninguém mesmo...

Muitas foram as tardes de sábado que ficamos, apenas eu e ele, em nossa casa. Nesses momentos, tanto ele como eu, preferimos a companhia um do outro a qualquer conveniência. Só nós sabíamos os porquês...

Bastava um olhar. 

Não espero que ninguém mais entenda ou acredite no que digo. Basta-me saber que é verdade. Ele também sabe.

Hoje não me sinto poeta... Não me sinto escritor... Não me sinto nem um pouco afeito com a expressão de minhas emoções... Por isso estou me pondo assim, num colóquio simples mas sincero. Se alguém mais ler essas palavras, que o faça por sua própria conta e risco...

Meu pai me ensinou a ser pau de dar em doido.

Ensinou-me que devemos ser, não da linha dura, mas da linha RETA.

Ensinou-me que não importa o que os outros pensem, mas sim o que nós sabemos de nós mesmos. E o resto que se foda...

Ensinou-me que, por vezes, a vida nos encaminha para coisas que simplesmente devem ser feitas, mesmo que não gostemos.

Ensinou-me que ninguém vai nos prestar nenhum reconhecimento acerca dessas coisas...

Ensinou-me que, portanto, de nada adianta explicar porra nenhuma...

Ensinou-me que a palavra mais importante é nós; e que a menos importante é eu.

Ensinou-me que para se ter a paz é preciso estar pronto para a guerra.

Ensinou-me que a honra vale mais, muito mais do que o chororô de quem se compraz no divã das vítimas.

Ensinou-me que o silêncio é muito mais que uma prece e que é preciso muito mais coragem para calar do que para estertorar a histeria do desencanto.

Ensinou-me que as convicções pessoais, desde que honestas, sinceras e enraizadas na alma, valem mais do que o conforto da auto-corrupção com que a auto-piedade oculta mentiras e omissões.

Enfim, ensinou-me muitas coisas dessa vida, em meio a partidas de gamão, lições de música e várias concordâncias e discordâncias nas conversas que travamos, longe dos olhos e dos ouvidos de tantos que, hoje, imaginam algo saber...

Vai gran fascio... Um dia estaremos juntos de novo. Jogaremos uma partida de gamão e colocaremos o papo em dia. Para surpresa de tantos...

Estive com ele em seu leito na UTI. Por meia hora pude falar com meu velho. Cantei para ele a música com que, tantas vezes, fui acalentado para dormir quando bebê:

Cumprindo no espaço a missão dos condores

Valente e audaz não vacila um instante
Nas asas de prata ao roncar dos motores
Vai a sentinela da pátria distante


Chegado o momento descendo dos céus
Num salto gigante surgindo do anil
Vai ele planando no templo de Deus
Lutar em defesa do nosso Brasil


Paraquedista !
Guerreiro alado vai cumprir sua missão
Num salto audaz 
Vai conquistar do inimigo a posição


Paraquedista !
No entrechoque das razões sempre serás
O eterno herói 
Que no avanço da luta ninguém deterá


ATÉ BREVE!!!